Zé-do-Burro, o pagador de promessa
Vi tudo de longe, pela grande tela
Zé-do-Burro, faca em punho, avança pelas escadas velhas
Pelo sacro-dever, o padre o impede, a promessa não se cumprirá
O delegado antecipa-o, quem lhe desafiará?
Surge uma onda humana, o povo lhe defenderá!
Na confusão ouviu-se um tiro, uma consternação...
No meio da multidão, olhei para o lado, doía-me o coração
Estouro de boiada, corre-corre, dispersão!
Na porta da igreja escolhida, Zé-do-Burro, jaz ao chão...
Rosa grita, um choro em explosão!
Lá vem o padre, sinal da cruz
Encomenda d' alma do pobre moribundo sertanejo!
Rosa o afasta, com olhar de desprezo...
O Mestre Coca, capoeirista, faz gesto preciso aos companheiros
Inclinam-se sobre o corpo estendido na ladeira
Fixam-no na cruz da promessa vã...
Numa nobre homenagem derradeira!
Carregam-no assim, como um crucificado
O padre recua sobre os degraus ensanguentados
Avançam-no, pela entrada principal...
Arrombam a porta, dirigem-se ao altar, numa entrada triunfal
Termina a peregrinação, cumpre-se a promessa ao burro Nicolau!
*O Pagador de Promessas é um filme brasileiro de 1962, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, dirigido por Anselmo Duarte (21/04/1920 - 07/11/2009), baseado na peça teatral de Dias Gomes.
*A Anselmo Duarte e sua obra-prima, minha homenagem póstuma em forma de prosa-poética.