Três-Marias

O vaga-lume, visitante por esta noite abarca pelo jardim das delícias e ateia um som peculiar através das cortinas de vento pousando lívidas nas noites preenchidas de estrelas. A primavera anuncia-se. Afável e clássica, absolutamente como as canções juvenis. Ela apresenta-se nua como em um sonho de uma menina mulher que espera pelo príncipe encantado nas supinas madrugadas. Delicada buganvília com suas rosas secretas exaladas no belo vergel das miragens. Um conto de fadas eu diria, com magnitudes florais a perder de vista pelos campos célicos. O cenário matiz revela segredos outrora escondidos pelas ninfas dos lagos azuis. A noite campestre esparge o bálsamo do amor e deslumbra minha alma cigana. Nas profundezas da casualidade a beleza olímpica clarifica meu corpo em três atos como as três-marias anunciadas pelos anjos.

Primeiro ato: no desenlace dos 15 anos ao perceber as nuances da vida escrevo errado por linhas certas. O ardor assume meu corpo e espírito. Às vezes nem me reconheço diante da charneira na parede cor de rosa do meu quarto. Procuro de forma incessante por respostas que nem ao menos faço idéia onde estão ocultas. Talvez os pássaros soberanos com suas asas brancas e largas poderiam ditar as obtemperas no vazio dos crepúsculos do mesmo modo latentes. Tantas perguntas e reflexões. O amor permite questionamentos intermináveis. As horas atravessam no declive dos episódios inflexíveis. A existência é uma só, reflito. Só se vive uma única vez. Quantas vezes são possíveis desfrutar do amor? Alguém por ventura saberia definir os segredos e a veleidade da ternura? Como em um quebra-cabeça o amor desconhece bornes e obstáculos. O amor nasce a partir de um chamado.

Segundo ato: nesta estação eu completei 21 primaveras e o esclarecimento em presença do amor granjeou asas maiores. Percebo que escrevo certo por linhas tortas. A paixão ostenta dentro de meu cerne e pulsa viva na fluidez do meu sangue. Apreendo que o amor nasce pronto como a luz de uma estrela ofuscando na abóbada celeste e negra de um verão intenso e magistral. Ao contrário dos sentimentos que nascem de uma canção em um olhar desvairado e aos poucos vão se lapidando como um diamante parvo. O resultado de toda transformação é a riqueza das minúcias do cálice. Ao percorrer os caminhos nuviosos o amor também sofre, porque ensinar é uma tarefa absorvente e complexa. E quem se permite conhecer a verdadeira essência e compartilha com o outro, colhe belas rosas rubras e magníficos frutos.

Terceiro ato: a mais bela de todas as estações. O amor está coroado de rosas rubras e incólumes como o meu coração cigano e bendito. Completei 27 anos. A vida me sorri graciosa. Sinto-me completa como as quatro estações. Experimento o supra-sumo do prazer e sinto que posso aventurar-me pelo mundo e sem destino certo. Como uma cigana quero desbravar os caminhos secretos e atingir o cume mais alto da montanha sagrada. Uma luz me acompanha. Já não sou mais sozinha. Os deuses sopram em minhas noites à vontade do vento e das serenatas. Finalmente conheci o amor ou uma pequena parte dele porque nada sei definir desse sentimento que me rasga inteira e desperta em mim tanta lucidez na magnitude infinita de noites infindáveis. E nos instantes em que descubro aquele certo olhar sublime e cigano, ao acaso me pego sonhando. Percebo o quanto viver vale cada segundo. E desfrutar o amor ao lado de quem se ama pode valer uma vida inteira dentro da eternidade de um olhar que se demora.

Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 17/08/2009
Reeditado em 17/08/2009
Código do texto: T1758119
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