Olhar cigano
No quarto da cor de sangue azul as rosas noturnas acendem-se, viscerais e supremas quando os anjos cantam os hinos sagrados do amor na terra dos deuses. Seguindo as palavras de U2 eu diria que “the heart is a bloom, shoots up through the stony”. Procuro pelos teus olhos na minha jornada pelas estrelas e o céu estende-se sublime pelos desertos do teu coração cigano, caçador de mistérios que insiste em dizer “decifra-me ou devoro-te!”. As noites são divinas e inspiram-me a buscar os teus passos secretos pelos labirintos da constelação de Lynx. Somente com olhos de lince é possível enxergá-las. J. Hevelius soube descobri-las a olhos nus. Escrevo teu nome, rasgando o céu negro de verão com a ponta dos dedos, onde o tempo ganha ares de pura contemplação. Teus olhos ciganos e de um fascínio absoluto espiam ao longe. Tão vivos e sonhadores que os anjos diriam tratar-se de puro deleite quando miram o largo horizonte nas noites que caem como cachos de uvas negras da cor do pecado.
“It´s a beautiful day” e tantas canções diluídas em uma tarde mansa que cai lenta ao som agudo dos violinos angelicais. De teus olhos brota brilho e textura violáceos misturados aos tons de terra que se revelam ciganos e não negam a beleza escondida atrás das cortinas de Vênus. Só sei que nada sei de minha vida feita de retalhos e sonhos e nada mais. Talvez se você soubesse decifrar as entrelinhas do amor ao tilintar das horas em noites acesas de estrelas. Ao despertar de uma primavera da cor de ternura o pôr do sol diria os teus segredos ao pé do meu ouvido. Diga-me: devo procurar nos labirintos as notas das tuas canções incrustadas nas noites mansas?
Observo pelas vidraças. As rosas que eu cultivo no meu jardim dos disfarces estão coroadas de espinhos e muito machucam minha alma cigana e solitária. As folhas outonais e multicolores forram o meu chão de ilusões lá fora. Se você soubesse do meu amor através dos meus tímidos olhares refletidos de luas femininas em fases diversas. As noites vicejantes e anciãs, lapidadas pelo tempo e desejosas pela presença do teu íntimo olhar cigano que há tudo ilumina quando nada mais faz diferença. Não consigo perceber se a recíproca é verdadeira. Às vezes sinto o teu olhar percorrer meu corpo de longe. Sinto e me esqueço que a música contém notas de jasmim e o cheiro exala meu espírito livre ao desabrochar da aurora. O meu pai sol espia pelas venezianas e me convida para recomeçar mais um dia após uma noite tão longa de espera.
Meu menino de asas. Eu aprendi a soletrar o teu nome ao vento, de mansinho como girassóis sorrindo após um banho de chuva. Aprendi a tecer tranças em meus cabelos de anjo quando você se demora. E enquanto a solidão rasga o meu peito em pedaços abro a janela e espio. Talvez você esteja caminhando em alguma esquina qualquer, todavia, só o que eu vejo lá fora é um sonhador, caminheiro viajante das estrelas. Um romanesco: com seus violinos negros e vermelhos, cor de sangue e de paixão. O peregrino ensaia uma canção que os anjos certamente inspiraram o rapaz devaneador. Abro as minhas asas de Esfinge e meu peito sangra ferido pelos espinhos das rosas libertinas como a noite. A eternidade pode durar um só instante ou pode prolongar-se por uma vida inteira.
De repente, ao longe ouço a canção “concerto la primavera” de Vivaldi e recordo-me dos nossos instantes ancestrais. A paixão em meu peito aufere asas e modifica meus sentidos; sinto-me como um ser alado, o Pégasus da tentação. Flores outonais celebram o beijo da partida e eu te perdi sem querer para uma guerra conflitante em outro país. (Normandia te faz lembra alguma coisa?). Doeu por uma vida inteira e eu jurei que ainda iria encontrar-te em algum lugar deste vasto mundo. Porque a eternidade não conhece limites. Os anjos haviam prometido que você cruzaria em minha jornada espiritual. Desde o primeiro olhar por ti, eu soube que você havia retornado após séculos de angústia e buscas infinitas. O reencontro ao manifestar-se em um abraço perene poderia construir laços tão profundos além da própria ancestralidade.
Naquela época ancestral onde tudo era complexo e arriscado, você era um cavaleiro da corte, mensageiro leal do rei e havia conquistado meu coração através de um único olhar cigano. Conheci-o em um fim de tarde azul. Você voou por mim em um cavalo veloz com outros cavaleiros. A batalha se iniciaria em pouco tempo. Eu era apenas uma menina descobrindo a juventude. Você parecia-me mais maduro, apesar do rosto jovem. Quando fecho meus olhos ainda lembro em flashes dos teus olhos cor de avelã naquela noite na taberna. Olhos muito intensos e selvagens como de um gato ferino. Uma noite longa bem-aventurada e ao mesmo tempo melancólica, pois você anunciou que partiria breve. Deus Odin chamava por ti, meu príncipe guerreiro. Tantas infinitas estações através do tempo que não conseguiu apagar as marcas de uma paixão dentro de minha alma cigana.
Continuo observando através das imensas vidraças do tempo. As cenas passam em minha mente como em um filme na tela do cinema. Minha pele quase pega fogo aos compassos do meu coração que salta e dispara ao perceber os teus passos de homem e príncipe. Você vem caminhando, com a tua beleza tão pura e não há nada igual para comparar o teu olhar fatal que atravessa o meu âmago como um raio de Eros. A seta do cupido acertou o meu coração com força absoluta. Os serafins alados não saberiam inspirar tanta ternura. Você, com teu ar de anjo e o perfume de madeira alega na essência as canções de primavera de outrora. “Você pode ir lá se você quiser e se você for vá comigo” Posso dizer sem receio que amo-te, tão simples e docemente como o bálsamo inebriante das rosas frescas no meu jardim de inverno.
Ps - Eu te pedi demais? Mais do que devia? Uma declaração de amor não pede absolutamente nada em troca do que fora declarado. Não, se você não quiser de verdade.