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          Não notaste minha ausência, é certo. 
          Possuís, como elemento que sois, o condão de apenas existir, deixando para mim a vida, a capacidade de sentir, de sofrer, de sonhar e amargar esta saudade imensa que plantasteis no coração e na alma simples deste vosso amigo e companheiro.
          Hoje, distante, sentindo as carícias da aragem morna e gostosa que sopra mansamente do norte; que vem de vós, talvez; que roçou, talvez, as grimpas de vossas árvores verdes e frondosas, volvo os olhos para trás e apenas diviso os horizontes perdidos na distância!...
          Sob um céu azul e imensamente belo, elegantes andorinhas diabruras tecem, inveja me trazendo do seu destino livre, enquanto em meu jardim, esvoaçante e incauto colibri o néctar busca de escassas rosas, fazendo me lembrar daqueles que às vossas margens vivem embriagados dos sutis perfumes que se evolam de um sem número de flores campesinas...
          E a saudade aperta. O pensamento voa, transpõe montanhas, rasga os horizontes e me leva para junto de vós!
          Novamente me sinto às vossas margens, à sombra do arvoredo acolhedor, a respirar essa brisa, fresca e cheirosa, que emana de vós e que instila em meu ser um pouco de tranqüilidade e dessa paz, que não encontro entre os homens...
          Contemplo pequenino e solitário a grandiosidade vossa e de tudo que vos cerca. E, como é bom sentir-se a gente pequenina e frágil, como realmente somos, ante a grandeza infinita da natureza!...
          E as lindas borboletas, delicadas e vaporosas como sonhos revejo, volitando em torno a mim ou gentilmente pousando em meu caniço, enquanto os passarinhos trinam ou descem às vossas águas para delas beberem e nelas se banharem profusamente, numa simplicidade e beleza indiscritíveis. No antegozo das emoções alegres que sempre me proporcionastes, oferecendo-me lindos e saborosos pescados, contemplo, do topo desta saudade apaixonante e quente, vossos contornos caprichosos no coleante caminhar em leito de areia e de granito...
          Esta, a felicidade que sempre me proporcionastes!
          Estas, as emoções que sempre busquei e que jamais me negastes, mesmo sabendo que nada possuía de mim para oferecer-vos, além de minha gratidão sem limites e esse amor puro e simples que se pode ter à natureza e que, em certos momentos, me fez alimentar o desejo de com ela fundir meu próprio ser numa integração perpétua, cheia de paz e tranqüilidade!...
 
  
                                                  Outubro de 1963.
 
Antonio Lycério Pompeo de Barros
Enviado por Antonio Lycério Pompeo de Barros em 07/04/2009
Reeditado em 07/04/2009
Código do texto: T1526969
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Antonio Lycério Pompeo de Barros
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 98 anos
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