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A primeira caçada

          O dia amanhecera limpo e o céu, todo azul, era uma promessa e uma esperança ao sucesso daquela que seria minha primeira caçada.
Armado com uma atiradeira, seguia o companheiro, que portava uma “Flauber” calibre 22.
          De repente o companheiro levanta a arma ao peito e, com uma das mãos espalmada, levada para trás, pediu-me que parasse.
Imóvel, apenas sentia o bater descompassado do coração a sacudir aquela estátua humana em que me transformei naquele instante, no auge da emoção esportiva, procurando vislumbrar por entre a copa do arvoredo a caça localizada pelo companheiro. E vi, no instante exato em que o amigo engatilhava a arma, uma humilde macaca tirar de suas costas um lindo macaquinho e mostrá-lo ao seu algoz, num gesto de desespero e de suplica, como a dizer: “não me mate; sou mãe e tenho um filho pequenino para criar”.
          Ante aquele quadro emocionante e triste, quebrei o meu silêncio e corri para o amigo, gritando-lhe para que não atirasse. Mas, o tiro partiu... Um corpo inerte tombou sobre o solo, às nossas vistas, e uns gritinhos prolongados e aflitos denunciavam a orfandade do pobre macaquinho.
          Desesperado, busquei em vão agarrar o pobrezinho, que fugia sempre, de um para outro ramo, preferindo arrostar os perigos do mundo irracional em que vivia, a se fazer cativo ou protegido pela espécie humana que põe a força de sua inteligência e de seu raciocínio a serviço do mal e da desgraça alheia.
          Cansado, exausto e revoltado, saltei sobre o colega, tomei-lhe a arma e a atirei para longe, enquanto ele, profundamente abatido, chorava de arrependimento... E, como duas crianças, que realmente éramos, choramos juntos a lágrima da reconciliação e da amizade, que perdoa e esquece.
          Voltamos. Nada dissemos na longa caminhada de volta! O silêncio, a tristeza e a decepção seguiam conosco!
           E, dizer que momentos antes nossos pés descalços pisaram, irrequietos, aqueles mesmos caminhos, procurando vencer sofregamente, a distância!... Que nossas almas viviam, a cada instante, emoções fortes, alegres e sempre renovadas por nossa imaginação prenhe de pureza e fertilidade!... Que as borboletas sofriam nosso assédio constante, enquanto a pombinha rola assustada, rufava as asas e ensaiava o vôo, temente ao perigo do nosso ataque!... Que os riachos de águas cristalinas e cachoeirentos exerciam sobre nós o fascínio e a atração que um Deus exerce sobre seus crentes, e que era com carinho e devoção de um beato, que às suas margens cruzávamos os braços num gesto de contemplação e infinito amor!... Dizer que na volta nossas pupilas se contraíram, nossos corações se fecharam e nossas almas se insensibilizaram ante todo aquele maravilhoso quadro que vivemos na ida, é aquilatar-se daquilo que foi minha primeira caçada!...

Escrita em Junho de 1960.

Antonio Lycério Pompeo de Barros
Enviado por Antonio Lycério Pompeo de Barros em 23/11/2008
Código do texto: T1298518
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Antonio Lycério Pompeo de Barros
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 98 anos
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Antonio Lycério Pompeo de Barros