Como se eu fosse um ET

Era cedo e eu não entendia o que se passava.

Tão jovem garota, errava e acertava, mas não percebia.

Amigos seletos, amores incertos e a vida, toda ela em mim não cabia.

Corria em direção ao mundo, pouco receio, sem arreio e o pé no chão já machucado, cansado, sem sola, já não conseguia pisar no freio.

Era tudo encanto, sem canto certo eu vivia.

Um turbilhão de desejos a girar, e entontear minha cabeça conseguia.

Não, eu não conseguia parar, viver pra mim sempre foi melodia, de canções diversas, de rimas e prosas, de letras, palavras e versos que levo na sacola e de espalhá-las como a pétalas no chão em meu caminhar, aos quatro cantos do tempo, com ajuda do vento, feliz, só assim, eu viveria.

Encontrei pessoas de todos os tipos, de cores diversas, de grandes conversas, de poucas e pequenas, mas que conseguiam meu peito encher, de curiosidade, de saudade, de vontade de ainda mais viver e/ou até, porque não, morrer de prazer.

Que vontade que dá, hoje com pouca força, hoje sem tempo, hoje no alento, de ler as páginas do tempo e nelas conseguir forças para voltar a viver.

Viver cantigas de roda, olhar mulheres e homens sem hora, sentados nas calçadas, colocando a conversa em dia, ou em mesas jogando dominó, com o baralho, buraco, enquanto o embaralho da vida esquecia.

Sinto nas pessoas de hoje apenas ferida, cicatrizes abertas, caras sofridas, materializando a vida, sonhando em ter coisas que não se pode ter.

Quanta coisa perdida... quanta gente iludida, que vive num mundo robotizado, de gestos automatizados, em busca de ideais falidos. Não valorizam sequer os seus filhos enquanto gozam e sofrem ao mesmo tempo, sem perceber.

Quero voltar a viver... viver com você que encontrei nas esquinas e que passou por mim despercebido e não falou, me ignorou como se eu fosse um ET, que vive em planetas distantes a procura da utopia de tudo ter para, só então, começar a viver.