Responde. Te Pergunto sem Descanso
I
Responde, te pergunto sem descanso,
És meu companheiro ou meu inimigo ?
Responde-me, pois com teus lábios
Que são já , som de minha voz, te peço.
Se é que podes falar e, sem razão,
Mais mudo cada vez estás comigo.
Chegas, cravas teu dardo
E vás deixando o coração ferido.
Assim, dêsde muito tempo, estás
És tão silencioso, como és antigo !
Porque se em meu regaço
Te acolhi docemente como a uma criança,
Porquem se em largo tempo e frio espaço,
dêsde que sou e ancio,
Por ti, dor, minha roupa retiro,
E abro minha nudez em fresco, lírio,
E sem vacilação, sem sobressalto,
Me ofereço, virgem, ao sacrifício,
Cordeiro do amor em holocausto,
Alvo colo sem medo ao negro fio.
II
Se tua flecha descobre todo o branco
Que envolve o coração como um "corpinho"
E tu com fundo e arrogante passo
Cruzas meu corpo, e com ansioso bico
Cavas em mim como esfomeado pássaro
Até achar o escuro labirinto
E penetrar o campo
Que chamei paraiso,
E no entanto não foi teu flechaço
Ao campo recatado do meu íntimo
Aonde arrancas ao fruto doce, os galhos
E as flôres, o pólem e o aroma,
Porque depois me esqueces, e meus braços
Que a ti abraçaram com fervor, hoje vazios
Ao teu mais íntimo contato
Ficam, desconcertados e aterrados ?
Nunca deste razão ao meu quebranto.
Nunca te pedi, porque hei acreditado
Acreditei em minha pele que se ofereceu a teu espasmo
E em teu punhal, relâmpago divino.
III
Te acolhestes a minha sombra, como uma árvore
Que te brindou sem nenhuma mágoa ou rancor.
Tudo porque te hei amado e porque te amo.
Venham punhais lúcidos e espinhos
Venham correntes e chibatas
Que destruiram meu espírito e instinto !
Por fé, por fé te recebi e em pranto,
Sem fazer caso de minha fé e meu grito,
Como em um jogo que não posso entender,
Vens e vás, mexendo, sempre o mesmo.
Porém, hoje que perco a forma e desencanto
em um espêsso e ressonante líquido
Que já é sangue meu, mas algo
Ébrio de contorções e de delírio :
Hoje ainda que dêsde o fundo, me levanto
E com náufraga mão te acaricio
Passa a fundir-se meu rosto como um barco
Dizendo adeus a tudo já vivido,
Te pergunta, dor, meu peito exausto :
" És meu companheiro ou meu inimigo ? "
" És como o verdugo ou como o bárbaro ? "
IV
Não há crueldade em tua espada, meu capricho ?
Porque te calas como um estranho
E te negas a ser de todo meu ?
Que defendes ficando calado ?
Eu nada defendi frente a teu abisco.
Pude ouvir, esconder-me e a teu assalto
Fechar a porta de meu recinto.
Não fui tua inteiramente por acaso ?
Que gozei, que sorri, que chorei ?
Se algo mais não te dei, é porque hoje me
Encontro dentro desta lagôa de incertezas.
Só a ti devo meu total naufrágio
Sómente tu poderás impedi-lo,
Diz-me se êste desencanto cotidiano
Que um dia me destes e que recebo
Em cada aurora como um pão amargo
Ao qual amorosa e ávida bendigo;
Diz-me se êste espêlho, ou manancial de pranto
É só uma obsseção, só um engano,
Não quero persistir em repeti-lo,
Porém se é minha verdade, porque estás calado,
Tua profunda razão em meu martírio ?
V
Me dirás que é invisível o laço
Com que cerquei-me e plenamente me ligo,
Plenitude que vislumbro como a um astro
Através das sombras do gemido ?
Ou me dirás que meu soluço é em vão
E que me embriago no pranto como em vinho ?
Que o tempo fará de minha alma um pôço sêco
Que só verterá lágrimas de vidro ?
Tu conheces meu rio subterrâneo . . .
Como poderás negar que te quero,
Como poderás negar que me queres ?
2007/05/11