O Morto

"-Boas tardes amigos. Perdoem meu atrazo."

Faz séculos que guardo

Vosso convite gris, convidando-me à festa.

Espera um pouco mais; agora me darão terra,

Pazadas de terra revolvida;

Me deixarão tranquilo e falaremos.

Ainda que se bem pensarmos,

Não se estava tão mal lá fora, no mundo:

Ver as nuvens que passavam, as garotas desnudas,

As crianças clamando o cotidiano pão,

Os cisnes, um cachorro em cada esquina,

Ou o guarda que dá com o apito a direção.

Porém . . .

. . . me sobra gente em tôrno.

Êsse de azul, vestido; aquêle dos galões,

E êsse que passa uma corda por minhas costas,

Espera que se retirem, e falaremos de todos,

Ainda que . . .

Haverá tanto silêncio que temo

Que acabarei me dormindo.