O CÃO

O cão vai e senta em uma esquina.

Passam alguns homens que acaso não fazem caso,

que acaso não o olham, que lhe dão pontapés,

que lhe descarregam seu ódio e seu desprezo.

O cão nada diz

corre. Lambe um pouco de terra da ferida,

remexe nos escombros, sua parte de miséria,

vai e senta outra vez, vai e se levanta.

O cão sabe que em um mundo pequeno,

não há sorriso, não há fonte.

Só o mundo pequeno, pequeno e mesquinho.

Só uma pequena e mesquinha palavra.

O cão já não late para a fêmea como antes,

já não brinca aos saltos,

já não salta e pula sob a tarde avermelhada.

Vai e senta-se tão só.

O cão vai pelo caminho algumas vezes

se cruza um carro, foge.

O carro e o homem seus algozes.

Se cruza com a criançada, olha de longe

e embrenha-se correndo no bosque.

O cão vai até o arroio algumas tardes,

bebe um pouco de água, e se reflete em seu espelho.

Entra na água e nada

que doce ternura, essa ternura, essa ternura

que lhe põe nos olhos o azul do céu.

O cão vai e senta uma manhã

e já não se levanta mais. Ali fica

feito sombra de esquina, rua , menino.

Igual a maçã caída na relva

jogado a própria sorte, a morte.

Essa mesma manhã se encontrará vazia.

E êsse raio de sol que entra pela porta.

Não o encontrará sentado na esquina

nem o achará dormindo à porta da igreja.

E não haverá mais o cão para descarregarem o ódio.

2007/05/01