Fora do tempo

Abro de súbito a janela

E eis que tenho saudades

De tudo que não mais vejo

Dói-me em cada página do tempo

Os cabelos grisalhos de minhas bisas

Coisa que lacrima os olhos é isso

Como um som antigo de realejos

Como um menino correndo atrás de pipas

Como a pureza perdida no primeiro beijo

Tenho saudades da brisa daqueles tempos

E apesar de todos meus atuais desejos

Queria sobre tudo tê-las ainda

Com seus ares sábios e serenos

Suas mãos de fadas envelhecidas

E agora, até eu que fui menino envelheço.

Não há mais lambe-lambes nas praças

Os bondinhos passaram há tampos

E os piões que giravam cantando

Suplantaram-se por tique-taques de ponteiros

Olhando pra fora do tempo

Ainda vejo Vovó

Fazendo seus bolinhos de chuva...

Olhando pra fora do tempo

Ainda vejo Vovó

Comendo batata doce em volta da fogueira...

Olhando pra fora do tempo

Ainda vejo Vovó

Contando estórias na cadeira da varanda...

Mas quando olho o agora

Cadê vocês minhas mães dos pais dos meus pais...

Lopes Neto
Enviado por Lopes Neto em 27/08/2011
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