O PRÍNCIPE CEGO 1 E 2

O PRÍNCIPE CEGO

Conto de Fadas Sérvio, adaptação

e versão poética de William Lagos

O PRÍNCIPE CEGO I – 13 ABR 2022

Um rei tinha dois filhos, um que era bom

e acreditava sempre na Justiça

e o seu irmão mais velho, que era o oposto

em cada ato que se punha a praticar;

morreu o pai e o herdeiro, de bom tom,

conforme a lei e sem mais injustiça,

foi coroado e então seguiu seu próprio gosto,

do irmão mais moço decidindo se livrar.

Em geral, era costume que o mais moço

fosse seguir a carreira militar

e do exército se tornasse o comandante;

terceiro houvesse, depressa o casariam

com uma nobre, mas de menor escorço

e como conde ou marquês o iriam nomear;

se um quarto filho fosse ainda restante,

como bispo da capital o ordenariam.

Mas quando Mirko faleceu, foi coroado

seu filho mais velho, Goyko, em seu lugar;

Milovan, o caçula, em tudo o apoiou,

sem ter inveja ou por ele oposição:

era o mais velho e pela lei era o indicado,

que o trono ocupasse não poderia contestar;

só uma pequena coisa o perturbava,

para qual carreira o indicaria seu irmão?

Porque o Rei Mirko disso nunca se ocupara,

era ainda jovem para as tropas comandar,

jovem demais para um casamento contrair

e certamente não apresentava vocação

para na igreja ingressar. Sempre pensara

que as antigas leis do reino o iriam determinar

e de algum modo deixara-se iludir

que Goyko o faria após a sua ascensão.

Afinal, ainda embora com firmeza

as rédeas de seu reino controlasse,

de suas tropas era Goyko o comandante

e ninguém sabe o destino das batalhas,

Caso ele morra, não me dê Bogh essa tristeza,

caberia a Milovan que seu reino governasse.

Cedo demais para comprometer o infante

em casamento que talvez tivesse falhas!

O PRÍNCIPE CEGO II – 14 ABR 2022

E muito menos o queria sacerdote,

que para o trono se desqualificaria:

era o Bispo de Beograd que a coroa

colocava na cabeça do indicado

e nada menos que o Bispado como dote

a um filho seu certamente caberia.

Nenhuma hipótese lhe parecia coisa boa,

e assim por Mirko seu destino foi adiado.

Mas ocorreu, embora pouco se expusesse,

em combate com os Turcos tão ferozes,

foi atingido à distância por uma seta

e carregado rapidamente a seu castelo,

embora Goyko no combate triunfasse,

sendo aclamado por vigorosas vozes,

mesmo não sendo a vitória assim completa,

o ferimento do rei a lacrando em triste selo...

Deixando as tropas a proteger a fronteira,

retornou Goyko com um bom destacamento;

seria mesmo natural que esse comando

fosse atribuído a Milovan, que combateu,

valente em seu denodo pela batalha inteira,

mas o temor de seu congraçamento

com os soldados lhe parecia nefando

E se em prestígio superasse o seu?

Mas levar só o irmão iria dar na vista

e despertar até mesmo desconfiança;

desse modo, deixou no comando um capitão

e voltou à capital com seu Estado-Maior,

no qual, naturalmente, o irmão se alista,

manifestando abertamente a esperança

que do rei fosse rápida a recuperação,

se bem lhe desejasse destino bem pior!

De qualquer modo, Mirko não se restabelecia,

embora os melhores cuidados recebesse

dos médicos da corte e mesmo os curandeiros

e o Bispo de Beograd dirigisse as homilias;

mas percebendo que a morte logo chegaria,

expressamente a Goyko ele determinasse

que de Milovan os interesses verdadeiros

providenciasse ao tomar do reino as guias.