Mãe
Perder a mãe é uma dor sem igual,
Talvez só comparável à perda de um filho,
O chão some rápido debaixo dos pés,
O mundo gira velozmente tonteando,
Os pensamentos saem dos eixos,
Dizem-nos "meus sentimentos, força!"
Mas não há mais referências, só dor,
A solidão toma conta e a revolta,
Ao mesmo tempo vem uma anestesia,
Que te tira da órbita, da lógica, do real,
A sanidade vai passear em outro lugar,
Tu te encontras sem rumo, sem fé,
Sem compreensão do que se passou,
Do porque se passou, de como ocorreu,
Mas a vida segue lenta e sofrivelmente,
E a dor intensa vai ficando sedada,
Ainda está lá, ainda grita vez por outra,
Mas o tempo retira a paralisia e conforta,
A ausência é para sempre e inexplicável,
Mas aprendemos a conviver com o luto,
A viver e sentir o luto doloroso,
A entender a nós mesmos e deixar partir,
Deixar que se torne mais uma estrela,
A nos iluminar lá de cima no cosmos,
Perdi minha mãe há sete anos e sinto,
Hoje, meu amigo perdeu a mãe dele,
Sinto a dor dele na minha do passado,
Sei que palavras agora são só letras,
Porque nada tem coerência nessa hora,
Mas a roda vira, a existência continua,
Novas vidas chegam e quem se foi,
É honrado, celebrado e rememorado,
O amor preenche o vazio da saudade,
E desejamos que elas, as mães, estejam,
Ao lado de Deus, reunidas tricotando,
Trocando impressões sobre os filhos,
Que continuam seus passos no mundo...