Sinhá Maria

No fundo da casa de minha infância

Havia um bosque quase abandonado

Retorno lá para expressar a gratidão

Pelas serenas lições de minha mãe

Repletas de sabedoria além do tempo

Como não cair no erro da discriminação

Ou acreditar nas ilusões das aparências

Vivência que recordo hoje na memória.

Um sinuoso caminho cortava o bosque

Onde ficava o casebre de Sinhá Maria

Solitária idosa abandonada pelos filhos

Operários atraídos pela cidade grande

Vestido preto longo para cobrir a alma

Cabisbaixa e pano branco na cabeça

Falava sozinha para vencer os dias

Resistindo ao maldoso estigma social

Após o nosso almoço especial de domingo

Minha mãe preparava um bom prato feito

Minhas irmãs e eu entravamos pelo trilheiro

Para levar um gesto àquela mulher solitária

Então víamos nela um sorriso pleno de alegria

E dentro daquela realidade tão modesta

Ela nos retribuía com abacates recolhidos

Na solidão dos campos onde sempre volto.