Saudade a gente sente de algo que já tivemos
Ou alguém que nos faz falta.
Das coisas que não vivemos
E que queríamos viver.
Saudade a gente sente
Do primeiro animal de estimação,
Dos brinquedos sem pilha,
Das folias nas ruas, dos parques,
Dos cinemas fora de shoppings,
Da carroça dos leiteiros,
Dos letreiros das balas Juquinha.
Saudade a gente sente do Ribeirão,
Do aperto de mão do amigo,
Do primeiro emprego,
Aquele, do qual guardamos
O primeiro contra cheque.
Sentimos saudade das fontes
Cujas águas dançavam ao som das músicas,
Da vontade de socar um nariz,
De escrever na areia com xixi,
De andar despenteado.
Saudade a gente sente dos amigos
Que hoje não são mais nossos amigos
Mas estão em nosso coração.
Saudade a gente sente da primeira formatura,
Da camisa mal abotoada, da insurreição,
Da suspeita de sarampo, da caxumba, catapora,
De fugir da escola prá tomar garapa.
De conversar com o amigo invisível,
De beberTubaína ou groselha,
De odiar beijo de velha,
De quebrar muitas janelas com a bola de futebol,
De ser o tal para as meninas,
Ou para as meninas, ser a tal para os meninos.
Da missa de domingo ninguém sente saudade.
A gente sente saudade de olhar pela  fechadura,
De apelar prá mão, levar bronca do irmão mais velho
(recuso-me a dizer porque)
Da corriola, do pula-sela, do vai que cola,
De mentir para a própria mãe
(só um pouquinho)
Saudade a gente sente de roubar cigarro e chocolate
Do armazém de um senhor José,
A gente sente saudade de andar a pé.
Saudade de tomar chuva.
Saudade também do mar,
Lugar onde a gente flutua,
Da Lua, que ao mar encanta,
Do Sol, que bronzeia a pele.
Saudade a gente sente dos passarinhos,
Do canto do sabiá, do canário do reino
(que tinha um reino inteiro para cantar)
Saudade a gente tem de voar
Com uma capa feita em casa.
De usar uma arma
Que cuspia jatos de água.
Saudade a gente tem, e muita,
Do tempo em que não existiam mágoas.
A gente sente saudade das coisas que não eram da gente,
Mas a gente queria ter, de sofrer ao receber o presente errado,
Quase chegando a duvidar do Papai Noel.
Saudade a gente tem do papel na escola,
De carimbar presença, de sentar em cadeiras de madeira,
Também se assoprar bolinhas de tinta no jaleco do professor
Com o tubo da caneta Bic.
A gente tem saudade de ser o Super Homem e proteger o mundo.
De montar quebra-cabeças
(sempre faltando a última peça).
De pintar de giz de cera a casa inteira,
De ser o terror das faxineiras,
De pedir desculpas pela décima vez,
De fazer o que nunca fez, de cuspir onde não se deve,
De nunca devolver um livro emprestado,
De sentar ao lado de quem não conhecemos
E descobrirmos ser nosso melhor amigo.
Temos saudade de quase tudo o que passou
E o que ainda virá.
E na escala das prioridades na saudade,
A gente tem saudade do primeiro amor,
Que nunca será o último,
Até o dia em que não será mais preciso sentir saudade.

 
MARIO SERGIO SOUZA ANDRADE
Enviado por MARIO SERGIO SOUZA ANDRADE em 10/01/2016
Reeditado em 10/01/2016
Código do texto: T5506725
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