Virtudes

"Quando procurei o espaço,
encontrei o céu amplo e azul.
Quando tentei a tarde,
vi, já pronto, o crepúsculo
na fantástica troca de cores.
Quando esperei a noite umbrosa,
encontrei o luar, as estrelas cintilando.
Parecia um altar das virtudes.
Quando procurei a manhã fria e nublada,
encontrei o raiar de um belo dia
colorindo o florescer pelos ramos verdes.
Quando procurei a garoa sobre a terra árida,
encontrei já a chuva serena,
irrigando o antes seco.
Quando saí e procurei um beco,
deparei com a avenida feito luzes.
Quando procurei um teto,
o abrigo que me livrasse das intempéries,
encontrei em seus braços o tapume, o afeto.
Quando procurei entender a vida escura,
seus olhos encontraram meus caminhos.
Quando, quando as mãos se negaram,
encontrei no amigo, o alento
que fez na palavra soprar o vento,
quando o ar já me faltava.
Quando tentei enxugar a lágrima,
o corpo já estava banhado.
Era o sangue da vida que pulava pelos poros.
Quando busquei a palavra
preso ao exílio das tormentas,
encontrei na voz amiga a oração.
Quando roguei pelo pão, Deus,
encontrei a mesa farta para saciar a fome.
Ah, Deus, nada, nada foi tão grandioso,
imenso quando inspirei um simples nome,
já o encontrando bordado pelas auréolas celestiais.
No desencontro, o encontro dos reflexos
eu teu nome, Marcelle."