O PEDINTE AMANTE

O pedinte deficiente,

pernas atrofiadas,

sentado na calçada da avenida,

caprichou no perfume.

Talvez ele queira que notem a sua deficiência

(ao oferecer um perfume )

ou talvez, à noite, o pedinte

venha encontrar a sua amada

deficiente cega

e já quer estar pronto.

O pedinte também anota uma poesia:

“Não sou cordeiro,

mas, perto de ti,

eu me sinto carne nobre,

eu me sinto inteiro, ajeitado, puro

e dono dos meus músculos.

Oh, perdoe este meu jeito ruminante!

Sou eu,

eu sou assim,

apenas metade do que seria

e esmolas não me recomporão.

(são cuidados que não pressentem

a sentença da minha morte).

Você, no entanto, está em outra rota,

instante de medo sim,

mas você é a rosa;

outro instante de percepção,

meu amor”.

De súbito a poesia quase estraga

a pobreza sagrada do pedinte;

diante do estalo de uma moeda ele diz:

- Bem vinda seja essa oferenda, flor da manhã

e que Deus redobre a sua graça sobre ti!

DO LIVRO: NOVA MECÂNICA

Paulo Fontenelle de Araujo
Enviado por Paulo Fontenelle de Araujo em 25/12/2019
Reeditado em 25/03/2024
Código do texto: T6826325
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