Testamento
Eu de mim
Um sujeito sem muito de mais
Apenas um nesse turbilhão de seres
De afazeres, de por fazeres
Tenho tempo
Tenho todo o tempo do mundo
Eu nada mais que só eu
Sujeito e verbo
Palavra e ação
Completo?
Nunca serei completo
Sempre há algo por terminar
Um filme parado no meio
Um livro ainda no prefácio
Tanta coisa há
Tanta manhã a acordar
Não tenho pressa
Deixo a vida conduzir esse trem eu
Eu
Sujeito mais nada além de mim
Bobo, sonhador, ingênuo, até
Mas sou
Com muitos defeitos
E poucas virtudes
Porém, há uma virtude que não abro mão
A capacidade de amar
Que seria de mim sem essa possibilidade
Um sujeito sem afeto, sem abraço
Não!
Recuso essa possibilidade
Então sigo
É verdade, às vezes tenho frio, sede de gente
Estar com gente me faz viver
Eu de mim
Nada mais que eu
Cheio de medos, desejos
Cheio de humanidade
Na minha lápide só isso
Viveu cheio de humanidade