ASPIRAÇÃO

 
Poema escrito em 2004, nos tempos em que eu ainda me cria poeta. Depois fui perdendo, como se foram vestes, cada uma das minhas 'certezas', esta também, de ser verdadeiramente poeta, ainda que o 'instinto e a antena poética' permaneçam em mim. Enfim...
Ao contrário de muitos  - felizes desses - a 'maturidade'  me tem sido a perda progressiva de certezas.
E não vejo tal 'fato' como caminho com retorno... Bem o quisera ver assim: caminho com retorno a tempos de alguma inocência... Bem o quisera ver assim... Talvez... Quem sabe... Quem o sabe...
 
 
 
Este já é um poema em plena crise, mas, tinha ainda, esperança, insólita esperança, para si.... Estranho poema esse...


                                       ASPIRAÇÃO


Pairem meus poemas
para sempre
pássaros sem nome
sonho de palavras
jamais escritas

a serem colhidas
por mãos invisíveis
que possam escrevê-las

e assim se faça
a poesia
que nunca hei de ler
no anonimato
que ninguém saberá.

Assim me faça
desconhecida
nos poemas
das palavras anônimas
colhidas

por um autor a vir
que se saiba
ou almeje saber-se
em tal sonho de ritmos
escritos por ninguém.

Em espaço onde pairem
sempiternas
as histórias
os silêncios
de tudo o que houve
e não

neste tempo em que eu
NÃO

assim fiquem também meus hiatos
meus vazios
ausências
que um poeta a vir preencha
com a própria respiração.




 
Ah, paineira! Presença pretérita de um 'nós' que se ausentou de nós, eis-me diante do desafio de ver-te total e 'apenas' como tu mesma, paineira sem quaisquer  lembranças de personificações... Ver-te em tua beleza inteira... de paineira florida... de presença sem história...
Foto tua no outono de algum desses anos mais recentes...