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Poema do Urubu

Urubu quando voa
deixa abertas as asas.
O ar para ele é plataforma
não de voo, mas de salto.

Mas nesse seu movimento
mei que se nota algo:
não tem ele a queda livre
que se vê nos outros pássaros

parece que ali o tempo
foi em parte congelado.
Não se vê ele caindo
apenas planando o espaço

como que, com seu gesto
alguma coisa nos falasse.
Atentando-nos os sentidos
ao teor de sua mensagem.

2

Quem sabe se esse voo
não é somente miragem,
tem um ar sacerdotal
semelhante ao dos padres

que deixa perceber-se
em sua cabeça calva
e no negro com que se veste
como de roupa roupa sagrada.

Terá ele o gesto de missa
com seu rito estagnado?
Por que ele em seu voo
tem apelo de eternidade?

Será por ser sua presença
um anúncio, uma chamada
do dia em que o tempo a nós
não será mais de contagem?

3

Talvez seja esse o motivo
de que sua feiura de pássaro
se ofusque quando voando
ele domina o espaço

Ele carrega planando
ar de augusta majestade
de diplomatas que portam
insígnias de autoridade.

Por isso o ar não carece,
de ser por ele domado.
Ao contrário, o conduz
como a alguém importante.

Um convidado ilustre
porém não convidado.
Mas que entra sempre
pela porta das casas.

4

Por ser arauto da morte,
com sua foice afiada
tem ele a lentidão de agonia
com que plana pelos ares.

O urubu não tem pressa
de correr até a carcaça.
Ela jaz ali imóvel
esperando devorar-se.

Porém o tempo ceifeiro,
ceifa também seus arautos,
um dia eles também leem
o teor de sua carta

e o peso que representa
a mensagem de suas asas.
O tempo também os derruba
para também devorá-los.
Tiago da Silva
Enviado por Tiago da Silva em 20/09/2017
Código do texto: T6120035
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Tiago da Silva
Afogados da Ingazeira - Pernambuco - Brasil, 29 anos
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Tiago da Silva