MILAGRE
 
Escrevendo poesias
me liberto da rotina,
que ordena e determina
o dia-a-dia mesquinho,
sem direitos, sem carinhos,
traçado à régua e compasso
por milhão de precedentes,
de antemão determinados.

Dou vazão aos pensamentos
que me assaltam, em torvelinho.
Nesse atroz redemoinho
eu ardo, incendida, qual chama,
faço amor com quem me ama,
e escuto a Terra inteira
aplaudir meu desempenho.

Rebeliões sucessivas
estremecem o meu espaço
em círculos tão diminutos
que, dentro, em mim mesma, eu escuto,
a seiva da vida, potente,
latejando intensa e bruta
num fulgor magnificente.

Outros tempos, outras eras...
A minha verdade é quimera,
é o mundo do sonho, o fantástico.
Nesse mundo eu me dissolvo,
e como num dom milagroso,
renasço de novo, e me acho.