PAINAS



Cala-te, poeta.
Cala-te e ouve:

Eu também, como tu,
Tenho cavalgado entre nuvens e espantos,
Entre brumas e penhascos...
Horas frias, mãos rachadas, lábios ressecados,
Narinas distendendo-se para tomarem fôlego,
Sobreviverem.


Trago os cabelos cobrindo meu rosto
Como crina basta,
Que é para esconder o pranto bailarino dos olhos
E esconder-me de mim
Dos males que me faço
Da caduquez de meus atos
Das teimas que não abandono
Dos conflitos em que me envolvo
Fixar-me em meus passos,
No eco oco de cascos cansados.
Eis a questão.


Painas molhadas, cabelos, crinas.


Ah, um dia azul...
Azul anil por inteiro!
Um anjo medianeiro
Descendo do céu ao meio-dia,
Luz nas mãos,
Alterando a geografia,
Operando mudanças.
Em mim. Em ti.

Leve brisa perfumada passaria...
As painas-do-campo no tom do trigo
Seriam sinal de ventura.
Trariam secura aos meus olhos, então.
A cabeleira agora exporia meu rosto.


Ouve, poeta.
O anjo demora a vir.
Frutos demoram a amadurecer
E soltar a paina.
A paisagem ainda não é alegria
Mas não está morta.
Aguarda seu tempo.
Tem seu processo, seu ritual.


               Não estás só.
               Nem tudo é azul.
               Para ninguém.
               
               Cala-te, pois, poeta.
               Aprende com as painas:
               É instante de quietude e espera.

              



   
   imagem: Google



  
 
KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 23/05/2014
Reeditado em 30/05/2014
Código do texto: T4817816
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