A PORTA
Há uma porta que se abre à Vida
Há outra que se fecha à Morte
Pode ser lânguido o desfecho da sorte
Ou tampouco sofrer por vil desconhecida
A noite me observa, sentado à calçada
Eu vigio a rua e ouço a porta
Ela se fecha, fúnebre, morta
E tu vais embora sem me dizer nada
De repente algo que há tempo não sinto
Invade o meu peito doente
Meus olhos estão tristes e eu descontente
Assassino maldito, maldito instinto
Se pudessem meus olhos os teus ver
Talvez nunca os decifrasse de verdade
Dentro de cada ser, de cada saudade
Há um mistério que vivemos sem entender
Tão profundo, tão indecifrável
Tão irreal, tão indizível
Ao saber que amamos um amor impossível
E que nem o abstrato permanece estável
Talvez nossa trajetória um dia seja apagada
E em nossas mentes, não exista passado
Lembranças vão embora no teu rosto ousado
E tu, Morte, vais caminhando na longa estrada...
Finalmente estou livre destes teus gestos cinerários
E já não tenho medo dos teus passos etéreos
Tu tens, meu amor, o convívio dos sérios
E a porta que se fecha, rubra Morte dos cenários