Hoje fez frio e depois calor
E frio de novo, uma garoa fina
Os pensamentos adentraram os labirintos
A inspiração muda nem olhava fixo para mim
Como sempre olha e como olha sempre assim
Um lirismo calado soava tal como um acinte
A palavra revoltada voltava para o lugar
De onde sempre veio e não roçava nada
Todos os poemas engasgados na garganta
Enroscados no grito das coisas pelo meio
E um temor me percorre as entranhas
Em estranhas sensações de irremediável quietude:
E se a poesia para sempre se calou?
Decerto que ela viverá muito bem sem mim
Seu vassalo, arauto de seus absurdos
Testemunha sentimental de seus devaneios
E guardião de seus mais terríveis segredos
E escolherá qualquer um para falar em meu nome

Mas e eu? Como sem ela eu viveria?
Como aceitar justamente o silêncio que não sei fazer?

O mundo sem poesia
A minha vida sem poesia
Vidas inteiras passadas sem dizer
Desse lirismo que é tão insuficiente
Para dizer do que é estarrecedor
Tudo coisa à mesa posta e seu sabor
Todo esse labor, viver, amar, morrer
Todo esse horror de tudo tão sem cor
Toda essa lida, impressão de que há sina
Tudo como se um destino governasse os gestos
Os gostos, os rostos, os afetos, os fetos e os cadáveres
O começo, o meio e o fim do que não tem senso
E tudo com ou sem silêncio, sem ser
Ou sendo tudo o que nunca vamos saber
Não sendo, é claro, tudo o que sabemos
Se se cala agora assim toda essa poesia
Eu já sei o que é morrer...
Marcos Lizardo
Enviado por Marcos Lizardo em 30/03/2011
Reeditado em 26/05/2021
Código do texto: T2880661
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