Elegia do desespero
Qual veleiro da bússola desprovido,
Num mar ignoto, tenebroso, tétrico,
Alço vôo tendo asas cruentas,
Na volúpia de imenso desespero.
São minutos, horas e semanas,
Alplidão crescente de tristeza algoz,
A sufocar o peito em rasgado pranto,
Mergulhando o ser em profunda dor.
Tal noite eterna de negror espúrio,
Corcel veloz cavalgando n'alma,
Ao oprimir resquícios de esperanças vãs,
Traz solidão repleta de funesto odor.
Oh insepulta carne de bolor voraz,
Na multidão perdida, vociferando ais,
Moribundo espectro, languidez perene,
No farfalhar sombrio de outonal desprezo.
Insensato homem de triste passado,
Existência dúbia de ofensor cruel,
Por que olvidaste o Filho do Homem,
Bálsamo divino de fraternal amor ?
Mas ao carpir a dor em espontâneo gesto,
No volver dos olhos ao infinito fausto,
Surge o Cristo, nosso irmão amado,
Esperança única dos desesperados.