A Morte do Poeta



Era noite quando bateram à porta e perguntaram se ali morava o poeta de nome Gaudêncio.

- Não está - respondeu a mulher. - Saiu ao por-do-sol e ainda não voltou. Deve estar no bar, no clube ou no coreto, certamente errando pela noite, como é do seu feitio, já que a noite é seu momento, agasalho e alimento.

- Mas não é por ele que venho, estou aqui pela senhora.

- O senhor se dê o respeito, sou mulher de um homem só. Se o meu marido não está, o senhor nem devia se aproximar da minha porta.

- Pois a senhora não se avexe, que só lhe ponho os olhos neste momento porque sou obrigado por uma missão que me delegou o destino.

- Pois se tem uma missão, que a cumpra de uma vez, que essa conversa já me põe nervosa e o meu feijão já vai queimar.

- Então eu lhe aconselho o fogo apagar, que hoje a senhora não vai querer jantar.

- O senhor deixe de confiança e diga logo a que veio, antes que esta porta lhe rache a testa ao meio.

- A senhora se acalme e contenha a violência. Sou um homem acostumado aos princípios da decência.

- Meu senhor, fale logo, eu recomendo. Se meu marido o pega, sairá daqui correndo.

- Seu marido nada fará, eu lhe asseguro. (Só agora me dou conta do quanto é duro.)

- Do que fala, homem de Deus? Está assustando a mim e aos filhos meus.

- Estou falando, minha senhora, que seu marido não voltará. Em pouco tempo, só a sua lembrança restará.