JÁ QUE TUDO ACABOU
lisieux
Já que tudo acabou e essa dor lateja como ferida aberta e nenhum remédio é capaz de cicatrizar...
já que a fogueira se apagou e o meu corpo jaz, frio como as geleiras, insondável como as complexas equações de física...
já que me perdi no labirinto, andei por desconhecidos caminhos,
e, ao conseguir encontrar a saída não deparei comigo...
já que a estátua foi ao chão e a pedra se esmiuçou,
tornando-se em poeira e não existem mais motivos
pra que joelhos se dobrem diante dela em sacrifício e súplica...
já que a chama da vela se extinguiu e a escuridão
estendeu seu manto sobre as esperanças, não deixando sequer uma nesga de luz a fim de se poder vislumbrar o fim do túnel...
já que o gorjeio dos passarinhos se partiram em notas dissonantes, não mais capazes de acordar a aurora...
já que o sol se recusa a aparecer rasgando os céus e colorindo o dia e a névoa da antemanhã não se dissipa...
já que não mais existem mãos que se estendam a fim de colher as flores nos canteiros e as narinas já não conseguem inalar o seu perfume...
já que toda palavra tornou-se vã, desnecessária, porque não mais é possível conferir significado a elas, já que, solitárias, elas esbarram na muralha da indiferença e nem o seu eco pode ser ouvido...
já que reencontrei o senso do ridículo e não mais tenho coragem de me desnudar e me mostrar em toda a minha simplicidade e pureza...
já que as águas lavaram o meu pecado e eu já não posso mais gritar minha paixão, rasgar-me inteira, mostrar minhas vísceras, sem pudor ou culpa...
já que nada mais se move: nem a dor, nem a esperança, nem o pavor, nem a fome, nem o desejo...
só me resta calar
tudo o que necessito...
BH - 27.12.03 - 04h06m
(Resposta a "Antes que tudo se acabe", de Angela Lara)