São Paulo

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Nos seus vitrais coloridos,

Em seus prédios desenhados,

Nos edifícios pichados

Por vagalumes da noite.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

De transmorfos seminus,

Rebolando nas calçadas

Com seus glúteos volumosos,

Seios siliconizados.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com proxenetas malucos,

Damas da noite cheirosas

Que perfumam té de dia

Os corações solitários.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com seus carros e busões,

Transeuntes... multidões

De povos tão semelhantes,

Com idiomas diferentes.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com ciganos pobretões

Que cobram por ilusões

Para ganhar sua janta

E pagar seu aluguel.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com as roupas penduradas

Em arranha-céus tão velhos

E que não aguentam mais

Manterem-se ainda em pé.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com ambulantes piratas,

Porque vendem falsidade,

Como que fosse verdade,

E convencem muito bem!

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia

Com Pau-Brasil na República,

O caramelo surrado

Que acompanha algum mendigo

Que não o tem como free.

Cantando lá na Paulista,

O saxofonista ganha

Aplausos, também gorjetas,

Sentem-se astros de show business

E quando chegam em casa

Não somam duzentos paus.

A arte vale ouro em São Paulo,

Ou eu diria ouromínio?

Porque a preço de banana,

Contadores nordestinos

Doam cada rima boa

Aos usuários dos trens.

M'c, caixa de som,

Com sua verve afiada

Foge logo, quando vê

O segurança vestindo

Calças e coletes pretos,

Com coturno e cassetete.

— Chama, papai!... A paçoca:

Dez é um, um leva dez!

A molecada faz festa,

Azucrina a mãe que é lisa,

Que não aguenta uma súplica

Do seu filho muito amado.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia,

Paradoxos, multiversos,

Pretos, brancos, índios, pardos,

Amarelos, loiros, ruivos...

Compõem a sinfonia...

Que não tem um ritmo só,

Segue em várias direções,

Culturas, credos, privês,

Igrejas, bares, farmácias,

Xinguilings só de tlinta,

Pão-de-queijo custa dois.

Cinemas apedrejados,

Ciclistas desesperados,

Cidadãos maratonistas

Correndo pra todo o lado;

Sem perna, braço ou coluna,

Os trabalhadores ralam.

Ralam sapatos furados

Nas calçadas retorcidas,

Quebradas, por construções

Infinitamente longas,

E que o prefeito não tem

Uma data para o término.

Vale do Anhangabaú?

Os paulistanos não sabem

O porquê do lindo nome,

Porém dançam break aos sábados,

Sobre a água do mau espírito,

Contorcida com concretos,

Com ferros, fios de cobre,

Vigiadas pelas gárgulas,

Roubadas por GCMS

E trombadinhas malucos

Que financiam facções

E poluem a bela arte.

São Paulo é veia vivaz

Que não titubeia ou dorme!

Perguntem aos balconistas,

Os que vendem aguardente

Pra andarilhos vagabundos

Que perderam a esperança.

Eles contarão histórias

Que o Datena não sonhou,

Que a Globo não nos contou,

Que as mães nordestinas nem

Sonharam um pouco só,

Nas quebradas do sertão.

A cidade de São Paulo

Esguicha tanta poesia!

A vida flerta com a morte,

O trovador não mais canta,

Porque o fio que é tão tênue,

Pende ao medo e à inspiração!

Cairo Pereira
Enviado por Cairo Pereira em 25/01/2025
Código do texto: T8249283
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