Vinzindário

VIZINDÁRIO

Quem cruzar (mesmo distante)

sob o silêncio da alma,

ouvirá - com tino e calma -

e só entenderá depois…

...que o berro grosso dos bois

ladeira abaixo, roçando;

E algum gaúcho assoviando

co’a solidão querendona,

nada mais é que o idoma

de quem ali foi ficando!

Vizindário é templo humilde

- crioulos de um pago ou outro -

...As prosas? De amores, potros,

changas, doenças, bolichos...

- Ranchos sem muito capricho,

com sombra e melancolia;

Onde, após os meio-dias,

descansam folhas e bichos.

Às vezes, corre algum fato

de boca em boca, na vila.

Dos devedores de “pila”

ou da moça apaixonada.

...Se assuntam coisas passadas,

sobre lembranças presentes,

destas que trazem à gente

saudade, encanto e mais nada.

Ali, a hora é corrida…

...muito embora o seu tamanho.

Povoadito - jeito estranho -

que é simples, mas requintado.

Tudo parece deixado

às mãos do vento, somente.

E se o tempo vai-se à frente,

segue constante e calado!

II

...Gauchada que se entrosa

em suas rodas de lorota.

...Canha, doces e compotas

n’alguma venda de esquina.

...E a infância não termina

no vizindário contado

com ossos que viram gado

se o avô pra o neto ensina.

...Sempre, o mais garboso, conta

dos seus feitos e destrezas.

...Não há fartura nas mesas,

mas nunca falta ou escassa.

...Se louva, em segredo, a graça

das irmãs d’um conhecido.

E é sempre bem recebido

quem por ali chega ou passa!

As noites - ternas e airosas -

são pacienciosas, compridas…

igual ao tranco da vida

da gente que ali se atém.

Segue-se o rumo do bem,

mesmo que, de quando em vez,

por conta de “dois ou três”

se desconfie de alguém!

Existem línguas afiadas…

...e como existem! - repito -

Que atiçam mesquinhos ditos

com queixas do que acontece.

Mas, logo, tudo se esquece…

...n’algum abraço ou perdão.

Pois, pelo bem do rincão,

só o que é justo permanece.

Há tanta fé neste chão

entre os mais novos e antigos;

(fé genuína, esta que digo...

...fugindo à que o mundo inventa)

Quem almeja ou se contenta,

entre preces, vai sorrindo...

...agradecer, aos domingos,

na igrejinha branquicenta.

O sustento se garante

cada qual à sua maneira:

...Esquiladores, parteiras,

sem horário à ir embora.

Campeiros: machado e tora!

...todos honestos, garanto.

E as senhoras, n’outro canto

lavando roupa pra fora!

...Vizindário, do caseiro

que é tranquilo e de confiança.

...Da mais sincera esperança

já curtida em outros lados.

...Dos segredos não contados

- causos, juras e mistérios -

...e as idas ao cemitério

pra respeito dos finados.

Parece ser d’outra era

o que se vê nestes lados.

...Todo carinho legado

neste sem fim, nestes ermos.

- Não acharia outro termo,

se não fosse “caridade”

pra definir a bondade

das orações aos enfermos.

Comadres pelas janelas,

balbuciando as novidades:

“- Fulano foi-se à cidade…

...por estudo - contrariado -

- E o ciclano? - Está pisado!

...andou domando ao patrão;

E, aprontando o redomão,

de susto, foi lastimado!”

III

Pedaço de mundo livre,

que resiste ao que é moderno.

E até penso ser eterno,

conforme a idade aponta.

Seu feitiço me remonta,

sua imagem me carrega.

E pareço andar às cegas,

se disso não me dou conta!

É pobre, mas tem valhia

que, talvez, n’outro lugar

pode-se querer pagar,

mas não terá coisa igual.

- Rotina tradicional…

...tudo medido à preceito.

Onde a razão do respeito

sempre se fez primordial!

Se Deus, com pura intenção,

te construiu - Vizindário -

não haveria cenário

mais perfeito à ocasião:

Um resto de imensidão,

que é longínquo da vaidade...

...e aonde a felicidade

quis guardar seu coração!