Liberte-o

Os olhos saltados percorrem o caminho negro

E o arrepio corre na pele

Denunciando que o corpo está alerta.

As lentes vermelhas fazem meus olhos arderem

E coçarem.

A meia calça, rasgada nos joelhos,

Impedem que eu sinta as terríveis formigas que escalam

Ininterruptamente

Minhas pernas.

As botas, pesadas de lama

Aquela lama negra do pântano

Apertam-me os polegares dos pés.

Os cabelos salpicados de água da chuva

Caem-me nos olhos,

No rosto,

Grudam-se como se houvesse cola.

O cordão com a caveira

Agarrado ao meu pescoço

Balança

Como o pêndulo de um antigo relógio.

Minhas mãos suam sob as luvas negras

E meus dedos, de fora,

Parecem ter adormecido.

Caminho sinuoso

Lápides de mármore se erguem

Frias

Solitárias.

Flores mortas

Cruzes sem cor

Retratos apagados pelo tempo

Ratos

Baratas passeiam

Morcegos planam em volta dos túmulos

Escondem-se sob as copas das árvores

Que margeiam o caminho

Sepulcroso.

Passo por entre as valas

Uma

Dez

Vinte

Cinquenta.

A chuva aumenta.

Aproximo-me de ti

Tua casa agora

É este túmulo frio

O teu corpo não pertence a este lugar

A tua alma precisa libertar-se.

Ajoelho-me

Pego este porta retrato horrível

Quem o pôs ali?

Não!

Teu sorriso e este cemitério

Não combinam.

Rasgo tua foto.

Meto a mão na terra molhada

Escondo os pedaços sob a rústica cruz. Do meu bolso

Puxo o cordão

Aquele

Que você me deu

Duas semanas antes de partir

Aquele

Que carrega a bruxinha

Cujos olhos são duas ametistas.

Eu grito

Aperto-o nas mãos

E a dor no peito

Rapidamente se dissolve em lágrimas

E eu sussurro...

Eu o perdoo.

Miah Witch
Enviado por Miah Witch em 26/05/2014
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