Fogo Na Senzala

Observo, calado

O julgamento

Estendo os braços

Os pulsos, pras vãs algemas

Descanso o pescoço na viga

Debaixo da lâmina aflita

Que a corda segura e o carrasco

Com a minha vida nas mãos

Decide num contrapeso

Se aqui é que eu saio

Ou se há um recomeço

Mudo-me

Não falo, não sigo sendo quem um dia ousei ser, por não enxergar nas árvores o destino

A forca

A corda que segura minha garganta e me espera como a lâmina sobre meu pescoço

As costas traçadas como um mapa do tesouro

Pra eles, eu sou ouro

Ou era, até que decidisse ousar outra vez

Os chicotes já não ardem como antigamente

A pele acostumou-se

Tornou-se mais negra depois do sangue

E então pensaram que pegavam leve demais comigo

Me abraçaram com facas

Me fizeram retalho

Me afogaram no rio

Me queimaram

Assim como o que eu fiz

Com o que chamavam de "casa"

Julgaram-me selvagem

Mas me caçaram como animais

Então, quieto eu me mantive

Para que me esquecesse, só por um momento

Que éramos todos filhos de um mesmo pai

Pai, perdoa-lhes

Pois eles não sabem o que fazem