ACORDA
A corda que puxa a água do poço partiu, sem data pra voltar.
Desde a primeira morte não morrida, as placas não erguidas se oxidaram.
E as primeiras manhãs sem vida nasceram e as trombetas não soaram,
os sinos não bateram, os alardes silenciaram e sob o clarão da luz a
vida se escondeu nas arestas de sua sombra e dentro de suas dobras
guardou o que se calou.
E nas vielas escuras ergueu-se o muro das lamentações e fez-se nas
dobras ocultas sob o blusão escuro que eles usam.
Eles que caminham com suas vestes de ouro e corações de plástico.
E desde aquela primeira morte não morrida a vida enterrou a vida.
E as bandeiras separaram, os tremores vieram, as palavras feitas de giz se
apagaram.
E entre a minha tez e a tua tez, a linha delicada da construção não se fez.
Sob as dobras de suas manobras, sob as sobras de suas ganâncias,
onde o risco da justiça não alcança, ainda assim, dança, em meio a escárnios,
sob as luzes apagadas, teimosa e reinventada, a esperança.