O milagre da multiplicação do não
Não, não, não...
tanto nãos colocados em minha mão
e não, não, não e mais não,
tanto não brotando
como broto de feijão,
é não, não, não e mais não,
tanto não pipocando
de grão em grão
é não enchendo o saco,
escorregando pelos dedos,
esvaziando a esperança,
é tanto não vazando da panela,
voando pela janela...
e não que não acaba mais,
não, não, não e mais não,
escorrendo pelo ralo,
estourando feito bolha de sabão
não e mais não
atirados pelo chão
é não, não, não e mais não,
tantos nãos,
que eu não sei não
onde vou parar com tanto não,
é não, não, não e mais não,
e não que não se acaba mais
e mais, é não
batendo a porta...
florescendo na minha horta...
paralisando minha aorta...
não que perfura,
que rasga,
que corta,
tanto não, que o corpo esquece que ainda vive,
pois apesar de sentir o coração bater,
é não, não, não e não e mais não,
tantos nãos que a alma já não se importa
de se sentir morta!
2018