A CASA ONDE NASCI

A CASA ONDE NASCI

a casa onde nasci

tem um jeito de domingo

sonolento e vagabundo

num segundo vejo a rua

paralelepípedos brilham os passos

dos passantes estrangeiros de mim

era assim que via o mundo da janelinha da porta

numa visão meio torta pelas voltas e reviravoltas

dos arabescos cinzas da pequena grade

e o óleo de peroba lustra minha entrada

pela amadeirada porta

meu pai ressona entre roncos roucos

interrompidos aos poucos por agudos assobios

minha mãe estica um descanso indolente

prolongado no sofá xadrez meio marrom meio verde

o silêncio limpo de vozes me ascende às fantasias

e de lá vazias as vidas distantes me visitam

minha avó e meu avô

a gata Ludimila

o peludo Ludovico

visitante perdida

por ali fico menos que um segundo

naquele mundo de abajures e ferro de passar

de latidos intrometidos dos cãs da rua

de tesouras e de alfinetes

lembretes em lista de compras na mercearia

na bancada de alvenaria recém pintada

achegada à mesa de pingue pongue

de cortinas de plástico onde nadam peixinhos

sobre a janela do banheiro

de toalhas brancas

protegidas pelas trancas da tramela

na casa onde nasci

tem aquele jeito de domingo

escorregando pelos tacos encerados

corredor afora

cozinha limpa de cheiros e panelas descansadas

vigilante vasinho de flor acordado sobre a mesa

de súbito um brilho se espelha na vidraça

e embaça o rosto de minha mãe

e a calvice do meu pai

e brilha bem devagar sobre meus olhos

cansados de lembrar

Mírian Cerqueira Leite

Mileite
Enviado por Mileite em 04/05/2018
Código do texto: T6326752
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