Gaiola de Silêncios

Pássaros cantam na gaiola,

suas asas lembram o céu,

um horizonte que ainda existe,

mesmo que distante, mesmo que mudo.

O vento sopra sem direção,

mas carrega sementes invisíveis,

que um dia, quem sabe,

encontrarão terra para brotar.

Teias de aranha na janela,

tramas finas, frágeis, esquecidas,

mas também redes que capturam

a luz da manhã, em fios de prata.

Falta corda no violão,

mas os dedos ainda dançam,

tateiam o vazio,

como quem ensaia uma nova canção.

Um rádio mal sintonizado,

vozes que se confundem com estática,

mas entre os ruídos,

um acorde, breve, quase imperceptível.

Um álbum sem recordações,

fotos que o tempo apagou,

mas nas margens em branco,

espaço para novas histórias.

Um coração que bate fraco,

mas ainda bate,

um compasso teimoso,

um ritmo que insiste em continuar.

Olhos que veem só borrões,

mas entre as sombras,

um clarão, uma forma,

algo que se move, que respira.

E assim, na gaiola de silêncios,

o tempo se arrasta, lento e cansado,

mas em algum lugar,

uma corda se afina,

um pássaro ensaia o voo,

e o vento, sem direção,

traça um caminho novo.