A CHUVA QUE CAI

Coisas meticulosas não me excitam...

Prefiro, à moda do povo, o ovo na marmita, a esfiha,

a procissão de São Damião à procura de Cosme,

a cama macia onde o sono oculto me dorme,

aceito de bom grado o poema com sutilezas da infância,

um poema hermético, quiçá, à guisa de concordância...

Repare na chuva que cai, que não obedece à geometria,

nos versos livres que não rima, uma Whitman poesia,

veja como é boa a polenta acompanhada de linguiça frita,

aquelas crianças pulando corda, as meninas, nas cabeças, as fitas...

Dentro da biblioteca um poeta introspectivo nos chama,

balança a estante, por não ser lido a um bom tempo reclama,

prefiro o pão dormindo sobre a mesa, a esperar a mordida,

do que passar o tempo procurando sentido na vida...

Mais grato me sinto quando me lambe a mão o cachorro,

quando me acena um amigo que vai ao supermercado,

minha ampulheta passa os dias a escutar o que ouço,

os grãos da neve a caírem, macios, sobre o telhado...

Prefiro sentir do que pensar, pensar do que crer,

imaginar que a vida é o tudo vivido antes de fenecer...