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Traidor

Meu olhos veem muito além das paredes,
Veem mais além que as fibras das redes,
Meus olhos mudam de cor com o que convém,
Sou o senhor dos senhores do além.

Minha mão tem mil e um toques,
Minha morte mil e uma mortes,
Meu azar mil e uma sortes,
Minha espada mil e um cortes.

Mas unicamente quando lhe vejo meus olhos vão ao azul noite,
E um dia foi te,
Não consegui lhe tocar, somente ver,
E irei fazer se arrepender.

Ninguém tira de mim o que já é meu por Direito,
Não há criatura que fuja do meu leito,
Nenhuma criatura que eu não toque em seu peito,
Exijo dos meus filhos o mínimo de respeito.

Meus cabelos sopram nesse vento maldito,
Afugentando minha sombra penetrante,
Pois sou eu teu senhor bendito,
Aquele de voz de infinito instante.

Sou onipresente em qualquer escuridão,
O único que venceu a solidão,
Pois de presença só basta a vinda do meu ser,
Aqui, na reencarnação e meu rosto em teu perecer,
E se ouve minha voz,
Fez por merecer.

Aquela voz que ecoa em qualquer silêncio,
Do coração remendado de cálcio,
Pois é um tremor vitalício,
Qualquer que seja a benção seria desperdício.

Tenho muitos nomes e muitas espadas,
Aquele que torce a língua nas caladas,
Que tem palavras mal faladas,
O criador de noites fadadas.

Sou eu quem a luz não ousa tocar,
Eu que faço a Lua sangrar,
Que diz e desfaz qualquer assassinato,
Pois eu sou o profano nato.

A escuridão palpável,
O maníaco estável,
O renegado amável,
Lâmina maleável.

Dono de mil uivados,
De gritos acorrentados,
Dos ossos trincados,
Senhor dos despedaçados.

Mais títulos que qualquer rei vivo,
Mais lamúrias que reis mortos,
Mais mítico que um grifo,
Mais sangue que os rios tortos.

Sou quem tem o sorriso indecifrável,
Que possui temperamento instável,
Senhor do intocável,
Sentimento inflamável.

Não adianta ter nomes e não ser chamado,
Não adianta ter ódio e ser amado,
Não adianta ser bondoso e não ser temido,
Não adianta aparecer e ter sumido.

Meu trono empilha todas as vitórias,
Eu piso na cabeça de todas as escórias,
Sou o mal de todas as histórias,
A cacofonia convocatória.

Rodeio qualquer um em tua presença,
Faço crescer a saliência,
Tiro qualquer paciência,
Faço humano em essência.

Dono de toda escaramuça,
Que faz sangrar toda fuça,
Ditador de toda ordem de guerrear,
Preparado no sangue para banhar.

Criado no sétimo dia que Deus descansou,
Aquilo que ele viu quando o olho fechou,
Que escapou do imaginário ao real,
O coração mais gélido de semblante infernal.

Dono do desconhecido,
E surpreendedor do admirável,
Achador do desaparecido,
Aniquilador indetectável.

Sou a vingança,
A matança,
A abundância,
A discrepância.

Sou a dança de facas,
Mudança de salas,
O questionador de falas,
Atacador de clavas.

Tenho tantos nomes quanto piscares da humanidade,
Mais nomes que respiração humana,
Mais raiva que qualquer saudade,
Tenho tantos ódios que almas mundanas.

E todos os títulos a mercê de vingança,
Pois há um traidor a quem contei tudo que sei,
Que eu procuro em meio da matança,
Que seria coroado como um rei.

O traidor que levou minhas raízes,
Que criou infinitas crises,
A quem me prometeram ser promissor,
Chamado agora de traidor.

Minha sombra rasteja sobre a luz,
Agora que minha fala não seduz,
Agora que seu olho olha a cruz,
Agora que sua alma reluz.

Eu sinto nojo e podridão,
Mesmo deixando a semente da escuridão,
Tenho uma garra gravada em seu coração,
E só estou esperando o momento para o puxão.

Você me traz ânsia ser asqueroso,
Por iludir ser tão poderoso,
Queria lhe tocar e não posso,
Mas seus pedaços serão nosso.

Nosso e só um,
Enlatado igual atum,
Preparado ao rum,
Um, Um, Um.

Sou apenas um em milhares de criaturas,
Não sei como aturas,
Tantas vozes na sua mente,
Que o querem descontente.

Minha voz em tua cabeça é orquestra,
E a minha desgraça é a maestra,
Pois quebrarei o cajado em tua destra,
E farei uma nova marca na sua testa.

Como pode filho amado me trair,
E com o Espírito ir,
Como pode se esvair,
Eu vou fazer seu castelo ruir.

De trás do trono está minha sonrissa,
De forma mais promíscua,
Tudo pode ser premissa,
Para que eu faça minha insana missa.

Sempre sentirá meu cheiro em tua casa,
Pois é a minha mais bela praça,
Aonde um dia teve minha graça,
A famosa e vermelha garça.

Hoje é mais um dia sem tua servidão,
Mas estarei sempre lhe esperando na escuridão,
Não há vazio, não a vão,
Que não instale dúvida em qualquer canção,

É uma poesia ameaçadora,
Profana e devastadora,
Sou a tempestade destruidora,
E você é incógnita causadora.

Tu és traidor,
Aquele que trai o ardor,
Que atrai a dor,
Vá onde for.

Não haverá dia que não tenha treva,
Não haverá noite sem uivo,
Nunca terás paz,
Não enquanto estiver de ti atrás.

Atrai-me em teu olhar,
Pois eu vou te procurar,
Depois de assim me tratar,
Custe o que custar.

Pois sou ambicioso e estou incontente,
Venha e me tente,
Por mais que eu lhe atente,
Filho do tridente,
Do fogo mais ardente,
Sou os mil olhos da Serpente.
Corvo Cerúleo
Enviado por Corvo Cerúleo em 22/07/2019
Código do texto: T6701561
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Corvo Cerúleo
Montes Claros - Minas Gerais - Brasil
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Corvo Cerúleo