VELHO DE NOVO
Você virá, desacreditado por uns, ovacionado por outros, abraçará a todos.
Virá com as mãos sujas a condenar os inocentes, a boca vazia dos
famintos, sem o cobertor dos mendigos, sem a sinfonia alegre dos pardais;
ou com a roupa lavada no rio da esperança, ou com a justiça flertada de
democracia, ou com a alforria sob suas asas rindo seu melhor riso.
Até mesmo com o empoderamento de belas surpresas cintilando boas
expectativas, com o sonho renovado do espancamento que o deixou quase
sem vida, com o renascimento da arte brotando da imaginação criativa que não
cessa, mesmo assim você virá.
Virá para nos dizer o que somos, o que queremos.
Virá para nos dizer que há uma luta guardada dentro de você, cuja vitória
nos fará crer que é possível viver em harmonia com as diferenças e as
afinidades estendendo o tapete de visitas.
Quem sabe, após o tombo teremos melhor consciência de nós mesmos,
enquanto limpamos as feridas.
Você virá, quiçá com a resistência colorida de afeto, com o vigor plantado em
nós, com o sabor das frutas, a dança das árvores, a água lavando as
almas sujas, com os copos erguidos pelas mãos dos ressuscitados.
Você virá, quiçá com uma sede monstruosa reparando a fleuma que rasgou a
carne social, esgarçando empatia até o limite que suporta, recendendo o aroma
das orquídeas que a indiferença da espera suplantou.
Quiçá, virá com um sorriso no canto do olho esquerdo, sinalizando que o temor
se dissipou, e o momento será ainda maior vertido pelo infinito,
guardado num presente, enterrando a amargura na caixa escura,
libertando a depressão que se aprisionou num porão sem porta.
Quiçá, dentro de um arco-íris debruçando júbilo.
Bem-vindo ao ano velho de novo, sem rosto, bem-vindo dois mil e vinte e dois.