HOJE
Somente hoje, estenda a luz do seu abraço ao garoto que lustra seu sapato,
como se tocasse na orquestra sinfônica mais importante de sua vida.
Distribua loas aos passantes que andam à toa pelas calçadas a ermo.
Atravesse o olhar do flanelinha com o brilho do seu, nos dezembros
que doem das festas que não vivem.
Estenda a mão sobre o pão que não vem, porque a colheita de tão gorda
vai de jatinho.
Apenas hoje, ressoe palavras ao vento que siga e vibre as estruturas
empoeiradas das máquinas que trituram sonhos.
Secrete ao coração de vidro o impacto do amor lançado na flor que
despreza.
Risque sobre a textura frágil do pano, o abandono sem pudor que o horror
carrega.
Só hoje, sussurre no ouvido da dúvida a ação que alimenta a placenta faminta
do filho que gera.
Repouse o vigor sobre o cansaço nas rugas dos anos, como arestas
sombreadas sob o sol da longa estrada.
Deixe que a loucura invada a ternura deserta no peito alado que o silêncio,
apressado calou.