DEIXA-ME NO TEU VENTRE

Deixa-me, no teu ventre, eu ficar,

Neste ninho de amor tão quentinho.

Lá fora tudo é frio e cinzento,

Há tantos tropeços no caminho

Da vida a ser vivida.

Deixa-me ficar no teu ventre

Macio; eu não vou incomodar.

O futuro eu o sinto desastroso

Se daqui eu me retirar.

Não quero que sofras por mim.

Sei que sonhas muito alto,

Mas o mundo é tão violento

E ninguém sabe o seu fim.

Aqui é minha casa, minha rua...

Solidão aqui não existe.

Com teus olhos eu vejo a lua,

Os pássaros, as flores e o mar.

Perdoa-me pelo ventre volumoso,

Pelo inchaço das pernas,

Mas meu amor se torna poderoso

Ao sentir tuas carícias através dele.

Já sei rezar a Ave-Maria!

Aprendi com o passar dos dias

Ouvindo, às dezoito horas, o teu pedido:

- guarda esta criança dos perigos

Em que vivemos, senhora!

Dai-lhe a graça de perfeita nascer

Abençoando-a nesta hora,

Livrando-a de todo o sofrer.

É por isso que eu te peço mãe:

- deixa-me aqui em segurança

Porque criança não tem esperança

Neste país que vou nascer.

31/07/06.