Da Pele Pra Dentro

É paradoxal que alguém que esteja cansado das palavras ainda tenha apreço pela escrita.

No momento atual, onde as mentes são bombardeadas por informação - o que causa grande confusão e discordância - ainda resisto em compartilhar pensamentos através de mídias sociais, já que a celeridade também altera a capacidade de compreensão de cabeças ansiosas que infinitamente rolam para baixo cheias de argumentos e concepções fixas, no entanto, de que serve uma ferramenta parada?

Já fazem 10 anos desde que abandonei as interações excessivas com os celulares e computadores e, enfermo à timidez, me obriguei a enfrentar dilemas evolutivos, como perguntar as horas para desenvolver relação interpessoal ou aprender a viver sem saber delas; lidar com a ansiedade de achar que sem celular algo ruim pode acontecer e não terei como saber, entre outras infinitas coisas que não caberiam numa lista. Tenho me desenvolvido de forma lenta, e incerta, e cheia de falhas desde então, atento às movimentações, e hoje percebo estar fazendo o que poucos estão interessados em priorizar: olhar nos olhos, mastigar a comida, olhar minhas fezes, me atentar a o quê como, o quê falo, o quê ouço, à qualidade dos meus pensamentos, entre outras tantas coisas que se pode fazer da pele pra dentro afim de se desenvolver a consciência infinitamente (consciência e intelecto não são o mesmo).

Longe dos enfeites que as palavras proporcionam, sob incompreensão e caos, questionei a existência do amor, no entanto sabia que os nomes não são as coisas, nem as coisas são seus nomes, então me lancei de apoito. Na recusa em aceitar esta palavra como ato de afeto, me empenho em entendê-la na prática, me desprendendo de qualquer conceito generalizado. Como entender o que é o amor quando barbáries são cometidas em seu nome ou em nome de deus que "é amor"?

Tendemos a usar a palavra "amor" para intensificar o quanto gostamos de algo, dessa forma, como amar nossos inimigos, como Cristo sugere? O Buda fala da ignorância, o que me remete que o inimigo não se trata de um indivíduo, mas algo que cresce - e pode se alastrar - mesmo dentro de nós, e que pode ser combatido com compreensão, por que quando eu falhar também quero ser perdoado e recomeçar.

Há quem pense que o amor é um sentimento, no entanto, é uma decisão. Quando compreendo que a mesma ignorância que aflige um outro também pode partir de mim, então isso é amor. Compreensão não rotula falhas ou defeitos, mas entende os aspectos a serem trabalhados com paciência e respeito quanto ao tempo de cada um, o que implica também na fatia dolorosa que é o amor, no entanto, não se pode usar esse caminho como desculpa para continuar fazendo o que se precisa mudar, por isso, compreensão também exige silêncio nos momentos oportunos. O amor pela Compreensão é uma escolha que se pode aprender com a prática.

Na ausência de estímulos tecnológicos diariamente tenho aprendido o que é presença. Reaprendi a brincar, e as crianças são mestres nisso.

A brincadeira de criança para um adulto é enfadonha quando só atende ao divertimento da criança. O "adulto" que se dispõe a brincar precisa saber fazer da criança ferramenta de sua descoberta e proporcionar a ela as ferramentas para que, brincando, se desenvolva. Tenho aprendido brincando que o que fortalece os vínculos não são os brinquedos, mas a troca que se tem na brincadeira. Numa dessas, após alguns minutos de folia intensa, na despedida, meu sobrinho, aos 7 anos, solta "tchau, titio, te amo!" de uma forma tão espontânea e inesperada que desconcertou a todos, inclusive os mais próximos, os quais empenhavam pouco tempo com Presença. Naquele momento entendi que aquele amor que ele se referia não era esse amor complexo que nos transpassa de diferentes formas, mas correspondia a um gostar numa intensidade maior que o de costume, mas também não pude deixar de observar que em tão pouco tempo a presença cria vínculos fortes. A partir de então, minha compreensão do amor ganhara uma nova ramificação: presença não é corpo presente, mas Envolvimento.

É lógico que não tenho a pretensão de definir aqui algo tão complexo com minha percepção angular, ainda por cima com palavras, mas num momento onde se pede "mais amor por favor" e onde violências são cometidas em seu nome, sinto de escrever como forma de provocação e reflexão - mesmo com medo de estar sendo trivial - afim de entendermos certas movimentações como causas e seus efeitos, e em quais direções estamos indo com o que estamos fazendo. Se pedimos por algo que carecemos (nesse caso, amor), é interessante notar também que carecemos hoje na Compreensão e na Presença. Por outro lado, é preciso discernir que nem sempre o Amor veste a roupagem da benevolência, pois como reza a música, "é como mãe que obriga os filhos a comer os vegetais, pois sabe que faz bem".

Ainda falando sobre ferramentas, não se pode usar uma chave de fenda para tirar um prego, nem um martelo para tirar um parafuso. Os celulares, as mídias (e outros artifícios tecnológicos que estão por vir) são ferramentas, no entanto, quando usadas sem discernimento se tornam o problema ao invés da solução, portanto, mais amor, por favor. Mais Compreensão, que leva à Paciência, que leva ao Perdão. Mais Silêncio, mais envolvimento e, sobretudo, mais Presença.

Ateliê Observatório
Enviado por Ateliê Observatório em 27/03/2025
Reeditado em 27/03/2025
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