Salvador, 15 de Outubro de 2008

OS PASSARINHOS estão a piar em minha janela como se suplicassem algo que ainda não compreendi. Junto a este som estão os barulhos dos carros e a música repetitivamente chata do caminhão do gás. A VIDA É feita de pingos d’água que caem sobre nossa testa quando estamos debruçados numa janela qualquer, curiosos com alguma coisa lá embaixo. Os pingos podem ser cuspes, suor de ar-condicionado, chuva, suor de gente… e na melhor das hipóteses, lágrimas.

 

A vida não deveria ser tão complicada assim…

Eu vivo numa solidão e num silencio que só é quebrado ao som do Rock and Roll de Little Richard e da Bossa Nova de Vinicius. Amigos visitam com frequência fazendo do meu lar uma casinha de interior. Existem aqueles ventos e espíritos que circulam comigo pela casa... De repente um dos espíritos que vivem comigo sopra algo em meu ouvido; então eu sento e escrevo. O que eu vou escrever vai depender do fantasminha que soprou em meu ouvido... se ele é bom, se é ruim... se for mau eu escrevo contos de horror. Se for bom eu escrevo besteirinhas como esta. Que geralmente é meio sem graça pois a bondade não se impõe… Ela não se coloca. Ela simplesmente está presente e você a sente. (...) sinto uma comunidade de pingos invadindo meu corpo. É um banho quente... daqueles que a gente pensa na vida e pensa, pensa, pensa... até que sente cheiro de fio queimando e desliga o chuveiro apressado. Minha filha acordou, está brincando no berço sem reclamar.

 

Ela tem quase dois anos. Vou brincar com ela até que pingos brotem de mim. Suor de alegria, resquício aquoso de uma capacidade que eu tinha de ser feliz; armazenado num pequeno ser vivo que canta a música da borboletinha umas 100 vezes por dia... Todas as vezes eu presto muita atenção.

 

Henrique Britto
Enviado por Henrique Britto em 03/03/2025
Reeditado em 05/03/2025
Código do texto: T8276982
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