Entre escrita e sinthome
Todos em torno de James Joyce.
Invoca a distinção entre o pai como nome e o pai como aquele que nomeia, este último suscetível de pluralização, segundo os artifícios de nomeação que cada um forja.
Situa-se o pivô da grafia introduzida no decorrer da própria conferência.
O tema é Joyce o sintoma, e não Joyce o símbolo, uma vez que este é abolido por Joyce, e que, por isso, não se trata do inconsciente, do qual ele estaria desabonado.
Este sintoma, que não é símbolo, não constitui uma formação do inconsciente.
Sim uma suplência, pai que nomeia.
De acordo com Lacan, Joyce visava fazer para si um nome e imortalizar seu nome próprio. A carência paterna de que sofria, teria levado o escritor, por intermédio de seu nome como autor literário, a construir uma versão para o pai, uma pai-versão (père-version) no sentido de uma versão em direção ao pai.
Sinthome corresponde a uma nova forma de escrita: a escrita dos nós.
O deslocamento ortográfico do termo psicanalítico sintoma para sinthoma dá as coordenadas de uma discussão eminentemente clínica que erige a arte literária do escritor James Joyce como "suplência de sua firmeza fálica" ou como "fiadora do falo".
A partir daí, assistimos a uma seqüência de lições sobre o nó borromeano de três elos, sobre o nó borromeano em que real, simbólico e imaginário justapostos, quer dizer, separados, são ligados pelo quarto elo, o sinthoma, equivalente do pai.
As aulas discorrem sobre o nó borromeano em suas diversas apresentações, sobre a falha a que o nó, ou melhor, a cadeia borromeana é suscetível e a correção que alcança por meio da obra.
As epifanias são, então, entendidas como conseqüência do lapso do nó, vale dizer, a partir das relações entre os registros, em particular, a relação direta entre real e inconsciente, enodamento não mediado pelo terceiro, o imaginário.
O caso Joyce, corresponde, segundo a proposta enunciada no seminário, a uma maneira de suprir um desenodamento do nó, em alguém cuja pretensão artística compensava a demissão paterna.
Ao longo dos comentários sobre as várias produções literárias de Joyce, destaca-se a convergência entre prática da letra e o saber-fazer com lalíngua (definida pelo conjunto de equívocos que lhe são possíveis), assim como as relações do sujeito com a escrita.
O seminário, livro XXIII: o sinthoma, de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2005, 249p.