Manhã, ansiedade e monofobia em movimento
Amanheci sentindo o ar gélido no quarto fechado, calcei os chinelos e fui para o banheiro tropeçando na gata no meio do caminho porque ainda não tinha despertado por completo. Lá fora a chuva caía há sei lá quantos dias, sinceramente, depois do terceiro, parei de contar. Fui para o trabalho me sentindo um robô, fazendo as mesmíssimas coisas de sempre sem chegar a lugar algum. Fazer uma maquiagem bem-feitinha costumava ajudar, mas, ultimamente, minha autoestima anda tão lá no chão, que nem isso salva. Passo um café enquanto os pensamentos acelerados e desordenados me invadem. Minha vida anda o puro suco do caos: não sei o que estou fazendo, não sei onde pretendo ir, nem por onde começar. Me falta planejamento, me falta ação! Não sou nem metade da mulher que um dia eu sonhei ser! Leio postagens sobre a crise dos 30 sem saber se a tenho, de fato, ou se é reflexo de um emaranhado de traumas subsequentes que foram tropeçando uns nos outros. Se pensar na vida, individualmente, já é árduo, pensar na vida amorosa é quase uma tortura, que te tira pedacinhos atrás de pedacinhos. Por mais que eu queira ter uma vida tranquila e recíproca a dois (inicialmente a dois, porque não parei para pensar muito sobre a não-monogamia), a ideia de que algo terrível vai acontecer é algo que está sempre à espreita. A falta de confiança no outro. O medo da traição (mais em questão de caráter do que de uma relação extraconjugal). A angústia de se imaginar só. A monofobia. A sensação de estar à deriva. Conversei com muita gente em muito tempo e, o que sinto, é que me colocam numa caixinha daquilo que é prazer momentâneo. A possibilidade de um nude recebido. A chance de um pernoite. Isso me mata aos poucos e, ao mesmo tempo, fico furiosa comigo mesma por ter me permitido me colocar nessa situação. Olha aí o emaranhado de traumas subsequentes que foram tropeçando uns nos outros. Há alguns anos, durante um relacionamento (péssimo, diga-se de passagem), me vi dizendo a seguinte frase: “eu sou melhor sendo amiga do que sendo namorada”. Eu, na verdade, era uma namorada incrível, atenciosa, carinhosa e, o que considero mais importante de tudo: leal. Fiel, mas também LEAL. Mas não bastou. Nunca basta, não é? Estou me colocando num lugar do qual ninguém vai me tirar e, se porventura conseguirem, não será tarefa fácil. Essa coisa de amiga. Porque cansei de oferecer fartura física e emocional em troca de pouco ou nada. Quero algo que valha à pena. Quero borboletas revoando desesperadamente no meu estômago, quero sentir arrepios de entusiasmo, quero me sentir viva novamente. E se o esforço do outro for mediano, então desculpa, mas é melhor que eu continue no meu casulo.