A MORTE É TÃO POPULAR QUANTO A VIDA

De repente o rumor distante da juventude tornava-se realidade, morria por estar vivo.

Aquele inimaginável evento acompanhado de um sentimento etéreo e assustador acontecia a ele! Sentia-se fora de lugar, incorpóreo, desconectando-se do mundo ao seu redor, distanciando-se numa escuridão que precipitava-se aos poucos sobre seus olhos.

Sentia-se tão próximo da morte que seu espírito parecia deslizar pra fora de seu corpo, ao mesmo tempo tentando voltar, descrendo do inevitável.

Todo seu passado vindo à tona com flashes de atos secretos cometidos às escuras e momentos de sua jornada desfilando diante dele, seus pais, sua infância, palavras há muito esquecidas retumbavam como trombetas nos ouvidos de sua mente, faces do passado, amores esquecidos, promessas descumpridas, dívidas proteladas e ofensas proferidas, tudo vertiginosamente apresentado como num salão escuro de cinema onde era o único espectador.

Ofegante, agitado, mais do que nunca queria agarra-se à outro momento, falar seu desassossego, confessar suas faltas, falar com quem não mais poderia ver.

Não sentia que era a lembrança de seu primeiro dia de escola, nem, seu primeiro emprego que morria com ele, mas, seu mundo e as palavras que já não poderia dizer. Seu pavor da morte devia-se a não ter vivido profundamente.

Morria em pecado e, sua tumba não seria o Sabbath de Yahweh. Estava acordando do sonho da vida para dormir o sono da morte, sem identidade. Nasceu como muitos, mas, parecia, que morria único.

Viveu pensando estar aprendendo a vida, e agora realizava que não tinha aprendido como morrer, deixando suas preocupações para outros consumarem. Sabia, agora, que a morte não espera o feito das coisas. Tivesse sido sábio, não teria sido arrebatado de surpresa! Teria ao menos se preparado, em parte, para a doença e a morte. A fumaça dissipava-se de sua chama que desaparecia e, o momento que temia como seu último dia, era o nascimento da eternidade.

Amava seu corpo e sua vida! Nunca foi tão sincero e crítico ao ponto de pensar em suicídio!

Imensa a ironia que abatia-se sobre ele, a cessação de sua existência, quando mais apego tinha em viver! A energia de sua existência terrena estava extinguindo-se para sempre.

Pensava a morte imprevista remetida à um obscuro e distante futuro, nunca lhe ocorrendo que o rumor distante da juventude realizar-se-ia nesse dia que já havia começado com cada minuto certo de predeterminação passando cheio de antecedência.

Seria Yahweh tão insensível em lhe dar a existência, mas, manter o controle de sua vida, sem permitir que realizasse seus planos, cometendo cálculo tão convicto contra sua vida, sem preambular nenhum preparativo, dando-lhe morte inesperada em meio a jornada, como se a finalidade da vida fosse a morte?

Num último lampejo de consciência, o coração de um pensamento sussurrado no horizonte de sua alma disse-lhe que morria uma morte igual ao falecimento de um rei.

J Starkaiser
Enviado por J Starkaiser em 23/11/2020
Código do texto: T7118956
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