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Eu, um Santo da Igreja do Diabo

Um amigo estava lamentando minha relativa reclusão... de que eu vivo que nem monge, sem me dar os prazeres, "curtir a juventude" etc. Me fez refletir um pouco, uma vez que não me identifiquei muito com sua percepção... é que o tempo, a vida, as dores, me fizeram aprender a "viver de dentro", e quanto mais a gente vai vivendo de dentro, vai perdendo um pouco o interesse no fora, não por uma renúncia ascética, mas simplesmente porque encontramos outros tipos de bens, outro tipo de prazeres... no fundo, acho que sou até mais, muito mais hedonista do que as pessoas que vivem "de fora", o que me torna nem um pouco menos pecador, muito pelo contrário. Muita gente tem o pecado da gula, mas a gula passa - você come e acaba! qual é a graça? Você se entope e entala, e não sobra prazer, não sobra nada. Então eu desenvolvi uma "Gula por conhecimento", por filosofia. Quanto mais eu devoro, livros, autores, pensamentos, mais insaciável me torno, e não tem fim o prazer desse banquete perpétuo. A avareza é o pecado do "apego excessivo aos bens" - ora, quer mais pecador que eu, que me Apego à poesia, à filosofia, enfim, a bens invisíveis, que nem o tempo, nem a velhice, nem a morte podem tirar de mim? Já a luxúria é a lascívia pela beleza do carnal, do sensual, da mulher... bem, então a luxúria passa com a loucura dos fetiches, com o espasmo dos orgasmos, logo após o qual os luxuriosos voltam a si mesmos, vazios e confusos, ao lado de estranhos. Que dizer da minha Luxúria que é pela beleza do que não se vê, não se toca? Pela Beleza da poesia, da música, da estética, da Arte... sendo um deleite que não acaba, haveria eu de trocá-lo por um espasmo? Já a ira é a raiva dos magoados, dos rancores, dos ressentimentos, dos orgulhos feridos... os irados se vingam e pronto, se matam, detestam alguém específico... mas que ira pequena! Imagine se encolerizar contra a Ignorância, o Fanatismo, a Tirania... é uma Ira com I maiúsculo, muito profunda, que não tem saciedade, não tem como acabar, uma vez que não é nem contra homens de carne e sangue! Se ao menos fosse, era só dar um tiro em alguém e pronto, mas o meu caso é um caso perdido. A inveja. Os invejosos invejam as posses, o status, as posições sociais... mas que inveja pequena! Se ele tivesse o mesmo poder, o mesmo dinheiro, a mesma beleza, o mesmo amante, passava rapidim e acabava assim fácil fácil! Por outro lado, Invejar Machado, Clarice, Suassuna... invejar Shakespeare, Goethe... Invejar a mente de um Platão, Hegel, Espinosa! Fica evidente o quão pior é a situação?? Como passa uma inveja dessas? E os preguiçosos, então, que tem preguiça de arrumar as coisas, organizar as coisas... imagina ter uma preguiça maior ainda, uma Preguiça sem fundo, sem fim, Preguiça de conversas banais, de pessoas fúteis, de relações líquidas, de amizades superficiais... Preguiça de não se poupar, preguiça de se decepcionar, preguiça de decepcionar os outros... quão melhor o mundo seria se a nossa preguiça se agigantasse, se se tornasse uma Preguiça de cuidar da vida alheia, de azucrinar os outros! E o orgulho, a soberba, de quem se acha maior, mais respeitável, um "doutor, padre ou advogado", mas que orgulho pequeno, que soberba pequena! Por um título, um papel, um diploma, uma profissão! Que soberba morna, mesquinha! Que tal a Soberba gigantesca de ter próprias ideias, de não se submeter a rótulos, de criar os seus próprios padrões, seus próprios critérios, não abrir mão de seus valores? Isso sim seria um Orgulho enorme, diante do qual aquele anterior seria um nada. Assim, meus "irmãos", nessa "igreja do diabo" não sou santo nenhum, pelo contrário, mas o maior dos hedonistas e pecadores, duplamente egoísta e Pecador com P maiúsculo! E convido todos vocês a pecarem comigo, a buscarem o prazer - com essa única advertência: peço que não se apequenem. Se for para pecar, por que pecar tão baixo? Por que buscar morrer na praia por prazeres tão pequenos, tão passageiros? Se for para sermos hedonistas, sejamos então Grandes Hedonistas, em perpétua busca de Prazeres que não perecem.
Chrystian Revelles
Enviado por Chrystian Revelles em 20/01/2020
Reeditado em 20/01/2020
Código do texto: T6845949
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Chrystian Revelles
Cabo Frio - Rio de Janeiro - Brasil, 25 anos
57 textos (1374 leituras)
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