R.I.P

Não vou ouvir mais a sua voz rouca repetindo ritmadas palavras sobre uma noite negra que chega. Chegou para você a noite traiçoeira, aquela que vem sucumbir as esperanças. Você deixou-se picar pela serpente cujo veneno dilacera corpo e alma e fragmentado tornou-se zumbi. É difícil para eles entenderem a dor que lhe sucumbia. Aquela dor silenciosa e cortante que tira o sentido de tudo. Eles só viam o tudo. Os seus lindos olhos caramelos. Sua esposa e filhos. Viam o sucesso e você lá no topo. Eles adoravam você, mas não viam o sol negro que ofuscava sua alegria. Restou-lhe o salto fora do cárcere da alma. Só quem já experimentou caminhar sobre o fio da navalha sabe o quanto o desejo de ser livre clama. No ápice, a adrenalina a mil, a compreensão de tudo. A certeza e as verdades muito, muito esclarecidas. Depois a depressão, a imobilidade, a insatisfação e impotência. Não estamos preparados para a humanidade. O existir puro e simples como aquele cão ou aquela planta. A rotina muito especifica. Promíscua. Por uma fração de segundos uma ideia, uma decisão. Uma voz ininterrupta dizendo: “vai, pula!” E o salto tantas vezes ensaiado toma forma. E um dia sai. Descanse em paz, Chris Cornell.

Adelaide Paula
Enviado por Adelaide Paula em 19/05/2017
Reeditado em 21/05/2017
Código do texto: T6003871
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