Ignorância

É claro que ela estranhou. É inconcebível um elogio sem que haja um fundo de segundas intenções nas entrelinhas. Não somos culpados pelas iniqüidades a que estamos habituados e também não podemos de uma hora pra outra deixar de desconfiar até da própria sombra. Creio que me traí com o olhar ao assentir com a cabeça que não; eu definitivamente não tinha maiores intenções do que elogiar algo que imensamente me encantou. Mas como disfarçar o efeito de um olhar tão penetrante e inquisidor sobre as fibras do meu corpo? Mas pus firmeza na voz ao falar que era só aquilo e pronto. E ponto. Um brilho de desapontamento perpassou seus olhos. Sorriu e disse “Então tá... obrigada” e foi-se: entrou no metrô e, colada à porta, sorriu de novo. Primeiro pra mim e depois pro assoalho. O Metrô colocou-se em movimento e a levou. Fiquei parado no mesmo lugar, com o olhar na mesma linha reta, sorvendo aquela peculiar sensação de ter perdido alguma coisa muito boa e única e especial. É. Mas mulher assim costuma custar caro: perguntas virão, cognição, intimidade, melindres, prazeres, dores – isso na melhor e mais delirante das hipóteses. Contudo, já decidi que é sozinho que quero viver. E sozinho morrer...

20/07/2011 – 07h48m

Rafael P Abreu
Enviado por Rafael P Abreu em 20/07/2011
Reeditado em 20/07/2011
Código do texto: T3107703
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