Rebobinado

Eu gostaria de escutar alguma boa notícia. A mais trivial notícia, conquanto seja boa. E nova. Ando girando no funil da senilidade a caminho do fundo do poço sem volta a cada erguida de órbita quando as vozes que penetram meus ouvidos me causam o mais profundo desinteresse na raça humana; quando as vozes femininas que penetram no meu crânio me fazem querer correr até a África - sim, sobre o oceano, pra honrar o Jesus que tem no meu sobrenome - com medo de casamento ou qualquer convivência contínua sob o mesmo teto. Deve ser estranho ser criança com a internet tão difundida. Olho esse pirralho dormindo de boca aberta ao meu lado e fico me perguntando se a infância dele está sendo tão boa quanto foi a minha e se ele terá o futuro decente que eu não tive. O presente decente que não tenho. Essa é outra história. Eles não assoprarão fitas de Super Nintendo e nem esperarão longos loadings de NeoGeo; crescerão sem saber quem foi o Jaspion e não sujarão os joelhos na cera vermelha; não se pendurarão em enceradeiras e nem rasparão a massa do bolo e nem levantarão os tacos do chão. Vida metamorfoseada. Adoraria voltar a ser imberbe e assistir VHS de skate e depois ir tentar pular cabo de vassoura de ollie. Antigamente meus rolamentos eram ruelas e hoje em dia o shape é de maple e eu pensava ser infeliz. Tem uma corrente presa no meu pé. Olho para o passado e vejo uma âncora me prendendo a tempos bons. Mas não posso voltar. E não consigo ir adiante. Não sei até quando e por que sigo adiante.

07/06/2011 - 23h23m

Rafael P Abreu
Enviado por Rafael P Abreu em 08/06/2011
Código do texto: T3020841
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.