A FACE OCULTA DA GALÁXIA capítulo 18: O prodígio

 

 

CAPÍTULO 18

 

O PRODÍGIO

 

(No capítulo anterior deu-se o rompimento definitivo entre Vésper e Valentina, agora tornadas inimigas mortais, o que levou Beng a trazer só Vésper, Lícia e Ornela na missão de recolocar o Artefato na nuvem cósmica. Uma última surpresa está reservada a Vésper e Lícia, destinadas a se tornarem mãe e filha...)

 

— Quando retornar à sede, acho que vou fazer uma ultramicroholocineangiocoronariografia. — comentou Beng, servindo-se de uma mistura de vodca, conhaque e tequila. — Esse caso me desgastou muito.

Ele parecia realmente abatido. Embora não quisesse reconhecer, devia estar abalado pela morte do Professor Gaspar. Afinal, com quem ele iria brigar nos próximos trinta anos?

— Tadeu - falou Ornela, chamando-o pelo primeiro nome, o que era raro, e indicativo de uma atitude de solidariedade — nós fizemos o possível.

Lícia e eu, partilhando uma torta de maracujá, estávamos tensas. À falta de seres humanos suficientes, Movila cedera-nos três robôs estúpidos, Pancrácio I, Pancrácio II e Pancrácio III, que cuidavam dos serviços mais vitais e dos mais pesados, deixando-nos folga para respirar — o que há tempos não sucedia. Lícia evitava falar com Beng e olhava-o de esguelha, desconfiada. Na verdade, porém, não havia razão para medo ou preocupação. Beng costumava deixar em paz quem não se pusesse no seu caminho.

Uma semana depois estávamos na nuvem opaca onde originalmente a placa se encontrava. A exata localização, nas espirais da galáxia, desse objeto, é algo que levarei para o túmulo. Beng mostrou-me, na tela de diagramas, com uma precisão de centímetros, onde a chapa deveria ser recolocada dentro de um aglomerado de piritas e outros meteoritos espalhados pelas nuvens de hidrogênio e de diversos gases raros.

— Temo pela ação desses robôs... — ia dizendo ele. — Temos que ter o máximo de cuidado, para não comprometer o resultado final da operação. Ataliba Yezzi faz falta!

— Nós temos os espíritos da galáxia, chefe — disse Ornela à guisa de consolação.

— Perdão — arrisquei — será que você não quer dizer anjos?

— Chame-os como quiser, minha cara. Eu vou lá no meu alojamento, acender umas velas para invocá-los.

— E é esse o material humano que a Cosmopol me fornece — lastimou-se Beng, depois que ela se afastou.

 

Vagávamos em meio à nuvem de detritos cósmicos de gelo espacial e gás interestelar, uma espécie de caixa-prego sideral, a milhares de anos-luz da Terra e de todos os planetas habitados por seres humanos. A tela diagramática mostrava a coordenada exata, pela rosa sêxtupla, mas eu confesso que alimentava dúvidas sobre o nosso empreendimento. Largar aquilo solto no espaço? Muitas e muitas vezes eu ficava olhando o cristal com suas nuances policrômicas, em nosso armário de concentração gravítica, onde ele flutuava solto no ar. Eu sentiria falta daquela visão aliciante, daquela voragem de luz e cor, que parecia conter, velada, toda a beleza do universo.

Tendo conversado antes com Lícia, procurei Beng em sua mesa de trabalho:

— Esqueça os robôs. Lícia e eu colocamos o artefato no lugar.

— Eu pensei nisso, mas para que vocês vão se arriscar?

— Para que? Para ganhar um horrível salário, como diria a pobre Maturina. Ou para cumprir o contrato de mercenária, como diria a Valentina. Mas, na verdade, porque eu sou mulher bastante para cumprir com o meu dever. Não acredito em espíritos da Galáxia, mas acredito em Deus e, se esse objeto é d'Ele, eu quero restituí-lo. Talvez assim Ele me perdoe por todas as coisas erradas que eu fiz na vida.

Beng olhou-me com estranheza, como se não me conhecesse; mas não fez comentários. Só respondeu:

— Está bem. Você irá. Mas... e a menina?

— Ela irá comigo. Viveremos ou morreremos juntas, fizemos esse trato.

 

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Em nossos escafandros espaciais dispúnhamos de uns braços articulados, tipo essas mãos coçadoras de costas, e com eles manipulávamos o cristal translúcido. Na escuridão do espaço cósmico, em meio à luz difusa de milhões de estrelas e galáxias distantes, o cristal parecia adquirir novas luzes e transparências fascinantes, como um frasco de gelatina multicolorida... Lícia e eu experimentávamos dificuldade em nos concentrar na tarefa, tal o aliciamento daquela visão.

Levávamos, presa por cordões entre os nossos, uma réplica em miniatura da tela diagramática, e quando a esferinha brilhante estivesse centralizada, saberíamos ter chegado ao ponto exato... mas não foi preciso isso. Repentinamente, como se tivesse vida própria, a chapa luminosa libertou-se das mãos plásticas e, volteando verticalmente sobre si mesma, aproximou-se de uma concentração gasosa mais espessa e opaca, entre seixos de gelo cósmico, e lá ficou, criando uma aura gigantesca ao seu redor, com todas as cores do arco-íris e muitas outras, até mostarda, magenta e ciclâmen. Nisso, porém, em meio àquela reverberação sobrenatural, uns raios luminosos, de intensa luz azul, vieram em cheio sobre nós duas; vimo-nos envolvidas por um turbilhão de energia e som... e música...

Era como se estivéssemos num túnel sem fim, e como se o véu que recobre os mistérios do universo de súbito se rasgasse à nossa vista...

— Vésper! Olhe! Olhe que beleza!

E aí eu vi... eu vi...

Meu Deus, não posso contar o que eu vi!

 

 

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Acordei no meu leito, dentro da espaçonave. Lícia estava ali, sentada na cama, velando por mim.

Até os quarenta anos eu jamais desmaiara na minha vida. Agora, num curto período, desmaiara duas vezes. Coincidência? Ou já estaria ficando velha?

Afastei esse pensamento e segurei a mão da menina, carinhosamente.

— Meu amor — você sempre dedicada, não é?

Ela sorriu.

— Descanse, Vésper. Você se emocionou muito.

— Que aconteceu lá fora, depois que eu perdi os sentidos?

— Eu pedi que puxassem os nossos cordões umbilicais e ajudei a trazê-la de volta. O Beng e a Ornela monitoravam você e disseram que estava tudo bem. Você já não estava desmaiada, mas dormindo.

— Está bem. Lícia... você viu o que eu vi?

— Vi. Eu queria falar com você sobre isso.

— Bem...

— Vésper, acho que Deus nos mostrou como o universo é bonito e como Ele nos ama. Nós tivemos... como se diz...

— Uma revelação. Uma iluminação.

— Pois é. Você vai sair da Cosmopol, não vai? Não é bom que a gente continue matando... tomando parte nessas coisas.

Eu a abracei com força:

— Você tem razão, querida. Nossa vida agora vai mudar. Eu prometo.

 

(imagem pinterest)

 

(Depois de retornar o Objeto à nuvem cósmica, Vésper e Lícia deixarão a Cosmopol? Aliás Lícia nem pertence à organização, por ser uma criança; apenas acompanhara seu avô, o agora falecido Professor Gaspar. Após tamanho périplo, Vésper resolve abandonar a vida de mercenária, à qual retornara a contragosto. Mas agora Vésper, Joana Pimentel, tem um motivo especial para viver, pois reencontrou o amor após a perda, cinco anos atrás, de seu marido. Agora Vésper tem o amor da menina Lícia, o amor de uma filha que a Providência lhe trouxe além de uma misteriosa iluminação que o Artefato lhe presenteou.

Breve, nesta escrivaninha, leia o EPÍLOGO: E A VIDA CONTINUA)

 

Miguel Carqueija
Enviado por Miguel Carqueija em 01/03/2024
Código do texto: T8010415
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