RP - ERA UMA VEZ... EM CASA BRANCA - PARTE 33
ERA UMA VEZ... EM CASA BRANCA
PARTE XXXIII
Em quinze minutos estão todos na fazenda. Leonardo está em pé no alpendre quando as motos e o carro de Cláudio vão parando diante da casa. Cláudio sai do carro e o fazendeiro não gosta das expressões que todos têm nos rostos. Olha para o filho e espera o que ele diga alguma coisa. Leonardo tem algo nas mãos.
- Ninguém sabe dele, pai.
Leonardo respira fundo. Não esperava ouvir aquilo, mas contém-se.
- Eu chamei o Arnaldo. Robério achou isso jogado no armazém, no meio do feno.
O fazendeiro abre o lenço e lhe entrega um punhal que Cláudio segura, sentindo um arrepio frio lhe subir pela espinha.
- Não é de ninguém na fazenda, Leonardo continua. – Há marcas de passos lá, muitos passos e nenhum deles combinava com as botas que usamos aqui. Seu irmão foi levado daqui a força.
O velho fazendeiro olha para todos os rostos ali na sua frente e entra na casa, aparentemente parecendo muito calmo. Cláudio o conhece o suficiente para saber que aquele é o modo que pai encontrou para manter seu equilíbrio e o dos que o cercam. Afinal de contas, ele é o chefe da casa e não pode se entregar ao desespero, mesmo que o problema o afete profundamente.
Beto toca no ombro de Cláudio.
- Vamos ter fé e calma. Seu pai pode estar enganado. A gente vai dar um giro por aí pela fazenda. Pela boçoroca* em volta da cidade... pela mata do lado da estrada...
- Pra quê? - o médico pergunta, olhando para o punhal.
- Sei lá. Às vezes, ele pode ter saído durante a noite pra esfriar a cabeça, se machucou em algum lugar, torceu o pé e não pôde voltar. A gente tem que evitar pensar no pior antes de ter certeza, Cláudio. Eu não vou aceitar a ideia de sequestro, antes de ouvir o delegado e ele dizer que foi isso mesmo. Fique com seu pai. Nós vamos nos dividir e dar umas voltas pela fazenda. A propriedade é grande. Tem muito chão pra vasculhar.
- É isso aí, diz Guto. – A gente vai achar o Wagner, sim. Talvez ele esteja em cima de alguma árvore, com medo de algum gato do mato...
A piada não surtiu efeito, mas a intenção foi boa.
- Nós também vamos, Cláudio, diz Dina, pelas moças.
- Eu não sei como agradecer, diz Cláudio.
- Ele é nosso amigo, não tem o que agradecer.
- Só procurem ter cuidado e não se machucar nessa busca. Eu vou falar com meu pai e daqui a pouco vou fazer o mesmo.
- Até já...
Sandra se aproxima de Cláudio e coloca a mão sobre as dele.
- Tenha fé. Nossa Senhora das Dores está com ele, diz Sandra.
- Tenho certeza. Obrigado, Sandra.
Todos se dispersam, tomando rumos diferentes. Diana sai da casa correndo e se agarra à cintura de Cláudio sem dizer nada. Ele coloca o punhal no chão.
- Oi, Didi, diz, abraçando a irmã e beijando o alto de sua cabeça.
Ela continua em silêncio com o rosto escondido no corpo dele.
- Que foi? Perdeu a língua? - ele quer saber, erguendo o rosto dela, segurando seu queixo.
O rosto da menina está vermelho e molhado.
- O Wagner sumiu?
- Não... - ele diz, enxugando seu rosto com os polegares, só está num lugar que a gente não sabe ainda onde é.
- Não é a mesma coisa?
Ele sorri e a abraça com mais força.
- Você anda muito esperta pro meu gosto. Você não tinha treze anos?
- Ainda tenho. Cadê o Wagner, Cla? A mamãe falou que ele sumiu e o papai estava ligando pra polícia quando eu cheguei da escola.
- E por que você não tirou o uniforme ainda? - ele tenta desconversar, vendo que ela está com a mesma roupa que chegou da escola.
- Não tive tempo.
- Então a gente vai entrar e você vai arranjar tempo agora.
Os dois entram na casa. Diana ainda grudada no irmão.
- Sobe e vai tirar essa roupa, ele pede. - Cadê a mamãe?
- Com a Elisinha, lá em cima.
- Eu já subo também. Vai.
Na biblioteca, Leonardo está ao telefone falando com o distrito policial. Cláudio vai pegar o punhal que havia deixado do lado de fora da casa e o coloca sobre a mesa. Quando termina o telefonema, Leonardo senta-se em sua poltrona e olha para o filho.
- O Arnaldo já está a caminho.
- Ele vai aparecer, pai.
- Vai sim. Ele tem que aparecer... ou eu vou enlouquecer.
Leonardo levanta-se e sai da biblioteca e da casa, indo orientar os empregados como agir nas próximas horas.
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* Boçoroca: São escavações profundas no solo, ocasionadas pela erosão, estão espalhadas por todo o município. Algumas estão “vivas” e outras estão “mortas” ou estabilizadas. São comparadas a “mini canyons” e chegam a ter mais de 50 metros de profundidades, 1000 metros de comprimento e 610 metros de largura O município de Casa Branca possui aproximadamente 332 boçorocas ao seu redor.
RETORNO AO PARAÍSO – ERA UMA VEZ... CASA BRANCA
PARTE 33
BOM DIA E OBRIGADA!
DEUS ABENÇOE A TODOS!